21 anos de falecimento do Mons. Furtado: 11 de março de 2019

Tudo parecia muito incomum; nossas palmeiras não farfalhavam suas folhas; nosso clima estava mais quente; nossas cachoeiras não mais barulhavam suas quedas nas pedras; nossas ruas pareciam desertas; nossa matriz estava fechada; nosso coração apertado. E mesmo que entrássemos em nossa Matriz íamos nos deparando com o que mais era inesperado; ao lado direito da Igreja Matriz uma espécie de buraco, vazio, jorrando água. Ninguém queria imaginar, nos fazia doer a alma e o coração; mas, lá estava cavada a sepultura do Monsenhor. Era um exagero já sua sepultura feita?!. Ele ainda não morreu! Seria desejo que ele transcendesse logo?! Seria aviso prévio que o dia estava chegando e seria prudente evitar improvisação?! O certo é que estávamos com o coração apertado; estávamos tentando evitar o inevitável ou pelo menos não acolhê-lo como fato consumado. Todavia, na direção reta daquele buraco tinha uma imagem de uma santa que sempre desejou ir para o céu; e na agonia da morte balbuciou umas palavras: “Não morro entro na vida”. E cuja santa nosso Monsenhor era dedicado filho e afilhado nutrindo por ela devoção sincera e amor incondicional. Dois dias, sua sepultura estava vigiada por ela. Esquecemos que com o seu olhar para a sepultura e para cada um de nós ela estava também a nos dizer: ele não morrerá; entrará na vida. No altar central de nossa centenária Matriz nossa Mãe Imaculada sob cuja proteção estava o sacerdócio do nosso Pai, no olhar que parecia triste e amargurado, mas com um coração alegre e contente, estava ela a nos consolar e nos dar esperança. Seu olhar, ao mesmo tempo em que mira o altar do sacrifício de seu amado filho Jesus, e onde por mais de cinqüenta anos dois corações: o de Jesus e o do Monsenhor se cruzavam numa experiência de amor, ela estava a nos fortalecer e a nos lembrar que seu coração triunfará. Era impossível não passar diante do altar e não elevar a Deus, a Nossa Senhora da Conceição e a Santa Teresinha do Menino Jesus uma prece pela saúde e pela vida do Pe. Zé Furtado.
Mas o dia 11 de março de 1998 chegou! E nesse dia o frio de nossa serra foi diferente; parecia esfriar e gelar nossa alma, nosso interior. Era uma manhã diferente; uma emoção provocadora de amargura e de insegurança, de medo, de orfandade. Mas, não tardou e a notícia veio. O Mons. Furtado morreu na Santa Casa de Sobral. Não se imagina nos que dele cuidavam a emoção sentida; a impotência experimentada e a ausência realizada. Ficamos sem nosso Mons. Furtado. O silêncio era pleno em toda a serra. No Seminário Regional Nordeste I, o então Seminarista e hoje Padre Eudes me avisa: Coragem e confiança em Deus, mas o seu Monsenhor faleceu. Sua amiga Joelma me ligou e pediu-lhe que lhe avisasse. O chão de minha existência desabou. Sabia que a partir de então estaria eternamente desprotegido. Mas a nossa última conversa, três dias antes, me fez ter coragem de ir até o reitor e comunicar-lhe de minha ida a serra da Meruoca para estar na sua sepultura. A licença de meu reitor foi confortadora. Vá, você precisa ir. E nós lhe acompanharemos com nossa oração. Os nossos bispos: Dom Aldo e Dom Walfrido foram imediatamente informados, bem comotodo o clero; notícias corriam nas casas religiosas de diversas congregações, seus familiares, amigos, nós todos.
Chegou a hora de receber seu corpo. Mas antes, parecia que havia pedido: seu corpo, agora sem vida, num carro da policia militar visitou a querida cidade de Alcântaras, minha terra natal, passando pela Floresta, Palestina, São Brás, São João, Bom fim, Algodões, Carmolândiae voltando até sua Meruoca, pelas ruas, acenando espiritualmente para cada um de nós. Era impossível não sentir o aperto na alma; mas impossível era não sentir, naquele corpo sem vida a transmissão da vida que provém de Deus e do espírito de Jesus ressuscitado. Os sinos da Matriz tocavam; parecia ser o dedo de Deus tocando o nosso Coração nos pedindo que, na ressurreição dos justos nosso corpo terá a plenitude da vida. E assim, já chega a tarde, a noite. O seu corpo, agora deitado na frente do altar central da Igreja diferenciava-se das tantas vezes que estava ele, em pé, firme, falando. Agora, deitado, silencioso, porém de olhos fechados. Este fato nos consolava. Quando o Monsenhor falava, fechava os olhos. Agora, de olhos fechados, não mais sua voz, mas seu coração e seu amor continuavam nos falando, nos ensinando, nos abençoando. Nós cremos na ressurreição da carne.
Os amigos, os filhos, os seus irmãos iam passando, tocando sua face, fazendo uma prece, rezando. E a tristeza vai, aos poucos transformando-se em tranquilidade interior; as lágrimas transformavam-se em gratidão e oração. E, a noite passou; mas estávamos durante ela iluminados interiormente pelas lembranças, recordações, pensamentos, palavras daquele que nos educou para a verdade e para a vida. O dia sem ocaso chegou e fomos para Eucaristia. Aquela noite foi iluminada pela esperança da ressurreição. Aquela noite não houve escuridão em nossas almas. O nosso Dom Walfrido presidiu a Eucaristia e Dom Aldo fez a encomendação final. O caríssimo Padre João Batista Frota proferiu a homilia. E que homilia! Digna de ser publicada e em breve faremos. Os padres, e eram vários, passavam ao seu redor aspergindo seu corpo com a água benta e entoando o Regina Coeli. As religiosas, em lágrimas, se despediam daquele que as orientou e conduziu para a realização de suas vocações. Fiquei ao seu lado, num sentimento de vazio, de medo do futuro, de insegurança. Não sei como voltei para o seminário naquela mesma tarde! O sino toca, seu corpo desce à mansão dos mortos, batem-se palmas, muitos choram e Dom Walfrido no forte som do microfone nos pede que confiemos em Deus e em nossa Mãe Maria santíssima, rezando o mistério do terço. O Mons. Furtado está sepultado e a Igreja Matriz da Meruoca no restante do dia e a noite está aberta para a permanência dos filhos, agora sem Pai. As ruas pareciam um dia 08 de dezembro, tão grande era o número dos que estavam na cidade. Mas como que perambulando pelas ruas, sem alegria, sem rumo e sem festa. Estamos sós, nos caminhos da vida, vivendo pela fé e aguardando o dia que nos encontraremos novamente com o Monsenhor, agora na casa do Pai. Melhor dizendo, não estamos sós, estamos com Jesus, com a Virgem Maria, escutando a voz do evangelho e fazendo ecoar em nossas almas a voz do nosso pastor nos ensinado os caminhos de Deus.
21 anos após tudo isso, nenhum dia, nenhum momento nosso Monsenhor Furtado foi esquecido por aqueles que o amam e que se sentem amados por ele. Sua sepultura guarda seu corpo e nossa saudade guarda e alimenta nossa esperança. Seu corpo lá está e cada vez que lá vamos nosso corpo se eleva em prece e entramos em plena comunhão com Nosso Senhor. É impossível não ir onde o Monsenhor está e não rezar e não pedir a ele um favor, uma ajuda. Interceda por nós e nos alcance de Jesus e da Virgem Maria as graças que tanto necessitamos. Abençoe nossa Meruoca e nossa gente e seu filho sacerdote. Muito obrigado Monsenhor Furtado, por tudo.
Por Pe. Francisco Alves Magalhães – Pároco de Frecheirinha.

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