A exigência de ser bem sucedido e a idolatria ao sucesso

Qual a representação do sofrimento na contemporaneidade? Como vemos o sofrer? Como você olha para o seu sofrimento? O que o sofrimento diz de você? De nós?

Nas últimas décadas o campo do sofrimento foi adquirindo um valor de verdade diminuído. Deixou de emitir ao sujeito a ideia de que o sofrer muito diz de nós. Portanto o sofrimento foi perdendo o valor holístico e se tornando cada vez mais estranho dentro de um campo de cultura que tem na ideia do sucesso um eixo fundamental. Esse conjunto ideológico em torno do sucesso fez com que a ideia do sofrimento fosse rebaixada a algo como o azar, algo inerente a um “apêndice” ou órgão que deve ser retirado sendo possível o sujeito permanecer igual ao ficar sem ele. Não é assim na vida psíquica, na medida que o sujeito está articulado a todo um modo de funcionamento do psiquismo; portanto não pode ser retirado como se retira um órgão.

A ingenuidade desse campo cultural vê no sofrimento uma espécie de sinal dos fracos, dos perdedores. No conjunto do imaginário das pessoas, os vencedores não sofrem. Vê-se isso na clínica, no campo midiático especialmente. O sucesso abole o sofrimento. O sujeito que sofre, é alguém que tem algum defeito em algum campo ou aspecto e que precisa ser extirpado, já que não diz nada de nós. O sofrimento é um “apêndice” que temos que carregar cujo valor é inexistente.

Isto é complicado e derivativo do conjunto hegemônico da cultura contemporânea, o que causa sofrimento a todos nós, porque cria a ideia da persecutoriedade do nosso sofrimento sobre nós mesmos, como se fôssemos os únicos no mundo que sofremos. E vamos desenvolvendo uma relação paranoide com esse sofrimento, pois ele nos persegue. O que diz respeito a vida psíquica aludimos ao dito popular “quanto mais rezamos, mais assombração aparece”; em outras palavras, se deixamos esse sofrimento de lado ou não o abordamos como ele merece ser abordado, inevitavelmente ele retornará por outras vias e formatos diferentes. De forma que pagamos o preço da nossa relação e reconhecimento da cultura, com esse conjunto ideológico representacional em torno do sucesso e que nos faz repudiar e dar valor nenhum ao que está envolvido a nossa forma de sofrer.

Na cultura contemporânea, sofrer é a coisa mais temerária e que faz com que as pessoas sofram de uma forma ainda mais muda, mais intensa em termos de angústias, em termos inclusos de derivações psicossomáticas, não permitindo ao próprio sujeito a simbolização do próprio sofrimento, a medida em que há esse repúdio egóico sobre a ideia do valor do sofrer que a cultura desvaloriza.

Que cultura é essa que fomos criando ao longo das décadas? Uma cultura que em última instância foi criando um campo de subjetivação do sujeito, tudo aquilo que nos torna um ser fraco, do que o psicanalista francês Jacques Lacan denominou “omelete de carne” como nascemos e que faz de nós seres absolutamente únicos; somos atravessados pela cultura e isso vai tomar uma campo de subjetividades.

Tudo isso para dizer que é impossível ser e, sobretudo sentir-se bem sucedido todos os dias, como se vende atualmente métodos que asseguram o sucesso nos campos social e profissional. Não necessariamente, o sofrimento deverá ser nosso companheiro diário. Entretanto, como dizia Ana Freud, quando os meus desejos não são realizados e isto me causa sofrimento, podemos chamar isso de vida,. Cabe a cada um de nós adquirir o hábito da reflexão… O que eu estou fazendo comigo? O que eu estou fazendo com o que está acontecendo comigo? O que eu estou permitindo que os outros façam comigo?

Talvez devêssemos experimentar olhar esta problemática por uma outra lente, para enxergar mais claramente o mundo e especialmente as nossas dores, que se bem ressignificadas, só nos fortalecem. Pensemos nisso.

Saúde!!! Paz!!! Fé!!!

 

Dulcinea Bandeira

Psicopedagoga e Psicanalista clínica

Ipu, 11/06/17

 

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