BELCHIOR

O baterista de Elvis Presley dizia que Elvis sempre o seguia. Onde quer que fosse Ronnie Tutt, após a morte de Elvis, ouvia músicas, notícias ou citações do Rei do Rock, onde quer que fosse.

Sou fã de Belchior. E nos últimos tempos Belchior me vinha seguido à memória. No ano passado estive em Fortaleza e hotel que me reservaram era no Mucuripe, um bairro da cidade. Lá vi a praia, as velas e os pescadores e chorei de emoção. Lá vi Belchior e profundidade de sua obra Mucuripe, gravada por Raimundo Fagner, Elis Regina e Roberto Carlos. Ali entendi melhor a canção e o talento de quem a construiu.

Num show recente de Raimundo Fagner, em Porto Alegre, uma de suas primeiras músicas foi Mucuripe e ele calou a mim e a platéia. Belchior me veio à mente.

Na Fortaleza que visitei fui falar sobre Comunicação e encerrei falando de Belchior onde me emocionei recebendo a solidariedade da platéia, formada por diversos de Sobral, terra natal do cantor.

Ao ouvir a Rádio Univates/FM, constantemente, o atento Marcelo Petter programava Belchior. E eu me emocionava.

Em paralelo, faz umas duas semanas, a lembrança de Belchior me veio à mente sem motivo algum. Fiquei uns dois dias pensando na sua obra e seu desaparecimento. Fui ouvi-lo no You Tube pra acalmar as minhas dores.

Ao saber, neste domingo de manhã, que ele estava em Santa Cruz do Sul levei um susto. E sua morte trouxe uma dor íntima.

Conheci Belchior em Encantado, no Canto da Lagoa, festival de música, na época  organizado pela jornalista Renira Turatti.

Após o show, uma coincidência permitiu que nos reuníssemos ao redor de uma mesa. Ele fumava um charuto e disse que estava exercitando caligrafia antiga.  Rimos sobre “Foi com medo de avião”, música que o popularizou e as piadas que recebia nos aeroportos do país. E o papo rumou numa viagem filosófica entre “ver para crer” e “crer para ver”. Conversa que até hoje eu não lembro como entramos e como dela saímos.

Foi uma conversa de meia hora. Ele não se demorou. Uma moça de Lajeado/Estrela, o rodeava. Um quase assédio. Ele, discreto e com cara de ironia, disse que precisava atendê-la.

E assim não deu tempo de dizer o quanto sua obra foi profunda e definitiva,  numa época de poucas luzes e reflexões.

Num período de sensíveis emoções eternizadas em letras, no sorriso de uma normalista linda e na presença de um blusão de couro.

Que Elis Regina te receba sorrindo, Belchior! E que as velas do Mucuripe levem as nossas mágoas, as tuas e as minhas, para as águas fundas do mar.

 

(Adriano Mazzarino, jornalista, Rio Grande do Sul)

 

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