UM TESTEMUNHO SECULAR

Vivo nesta casa desde sua inauguração solene. Sou a guardiã deste Mosteiro por expressa recomendação de minha mãe e plena concordância dos meus irmãos condôminos. Tenho a idade deste belo casarão. A vida dele se confunde com a minha. Aqui cheguei, nos braços de minha mãe, no dia da inauguração. Peço que me permitam, por amor a este solar, trazer um testemunho, evocar velhas e caras recordações, como se fossem, à maneira de Machado de Assis, minhas relíquias desta casa velha, memórias deste Mosteiro de Marphisa Mont´Alverne.

O terreno onde está encravado este solar pertenceu a meu avô Antônio Mont´Alverne, que pretendeu construir aqui sua residência, tendo até levantado os alicerces. Na sua sucessão hereditária, ocorrida em 1910, coube como quinhão esse terreno a meu pai, Antônio Mont´Alverne Filho.

Homem de largos cabedais e ânimo de construtor, o Coronel Soares dá início, em 1916, à construção deste solar, aproveitando o terreno que pertencia ao genro. Durante dois anos, 42 operários dos mais variados ofícios trabalharam na construção deste casarão que meu avô presenteou a Sá Marphisa e Seu Alverne.

A casa era um requinte, adornada com mobílias austríacas, vermelha e preta, consoles de pau-preto, com lanternas de cristal e jarro de opalina; espelhos venezianos; telas de pintura; gravuras francesas; piano alemão, violino e bandolim e grandes retratos dos nossos avoengos; quadro com a bênção do papa reinante; lustres faiscantes; belo quadro do Cristo, procedente da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará; imagens francesas no santuário, portas entalhadas e com trincos de louça, encimadas de rica traça da movelaria sobralense; mesa de refeição de tamanho conventual; guarda-roupas de cedro-faia; urinóis de cristal e de louça; lavatórios; penteadeiras; liteira, aparelho de louça com o monograma “AS”, outro belíssimo, que chamamos aparelho das orquídeas, adquirido por meu pai em São Luís do Maranhão, terra onde estudou.

A inauguração deste solar ocorreu em um domingo. No topo da escada, recebendo os convidados, estavam Alexandra Soares e Mariquinha, ele abordoado à bengala e ela de vestido longo com uma sobrinha francesa adquirida na Maison Bleue. Às dez horas da manhã, chegou minha mãe, arrimada no braço do marido. Antes do casal, subiu a escadaria da entrada desta casa o cortejo composto pelos filhos: Mimosa, José Maria, Maria Elisa, Aracy, Guarany e Alpha. Tive o privilégio de entrar nesta casa nos braças da mamãe. Ao lado dela vivi com alegria, até que o Senhor a levou para o seu Reino, a 4 de maio de 1973. Continuei a viver neste Mosteiro de Marphisa Mont´Alverne como sentinela inarredável que vela por tudo o que aqui está, preservando-o para a descendência de meus pais e para o regalo dos visitantes. Vivo alegre, mas com o coração povoado de saudade.

A festa da inauguração a que me reporto constou inicialmente da bênção das dependências da casa, por Dom José Tupynambá da Frota, acompanhado do Padre Lira (Antônio Lira Pessoa de Maria) e de Padre Linhares Fortunato Alves Linhares), como eram chamados à época. Após isso os oficiantes e convidados retornaram à sala de visita para a bênção do majestoso quadro do Cristo, adquirido no Grão-Pará pelo Verniaud, amigo de meu pai. O quadro foi alçado por roldanas ao alto da parede central e lá permanece até hoje, abençoando aos que chegam e saem desta casa. Na ocasião do término da sua aposição, a banda de música Euterpe Sobralense executou o Hino Nacional, sob intenso foguetório. Em seguida, os casais Alexandre Soares e Mariquinha e Toinho e Marphisa trouxeram os convidados até esta mesa secular, repleta de doces e salgados e do vinho da Sicília e da Toscana, que o Barão encomendou na Casa Boris. O primeiro orador a falar foi o Dr. José Clodoveu de Arruda Coelho, já àquela época um mestre da oratória sobralense. Logo após, o jovem Rodrigo Machado fez o perfil de homem empreendedor de Alexandre Soares. O Padre Linhares, pela amizade estreita com a família, falou em nome de meu pai. Finalmente, Dom José Tupynambá da Frota, em tom de comovida emoção, relembrou a grande amizade que unia seu pai, Manuel Artur da Frota a Alexandre Soares. Ao término de sua oração, Dom José aludiu à amizade que tinha a meu pai, companheiro de infância e de banco escolar, nas aulas do Professor Arruda. Referiu-se à promessa que fizera de casá-lo, após ingressar no Seminário da Bahia e se tornar padre. Meu pai garantiu ao amigo que esperava vê-lo padre para que pudesse presidir a cerimônia do seu casamento. A promessa daqueles dois meninos foi integralmente cumprida. Na Capela de Nossa Senhora do Rosário, a 10 de novembro de 1906, meus pais receberam a bênção nupcial, pelas mãos do Padre Doutor José Tupynambá da Frota.

Minhas Senhoras. Meus Senhores.

Os aplausos que de ouviram do contentamento dos participantes da inauguração desta casa, repercutem no meu coração, ecoando até a solenidade de reinauguração que agora celebramos, na data indelével de 24 de novembro de 2004.

Foi bênção de Deus que me propiciou assistir às duas festas desta casa, arca das tradições da família Mont´Alverne.

E hoje, com 100 anos, participo do centenário do Mosteiro.*

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