A causa de Deus é a causa dos pobres

Certo dia, vendo, Jesus, a multidão que o seguia, voltou-se para o povo e começou a proferir um longo sermão que depois ficou conhecido como Sermão da Montanha. Suas primeiras palavras foram estas: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!” (Mt 5,3)
Certamente, a maior parte daquela multidão era formada não pelos doutores, por grandes comerciantes ou pelos poderosos da época, mas justamente pelos pobres, escravos, oprimidos e injustiçados. Em vez da opressão e das injustiças que sempre recebiam, eles encontraram junto a Jesus um discurso diferente e acalentador. Eles ouviram palavras que lhes exaltavam e enchiam de esperança. Aquele homem trazia um discurso novo que lhes incluía no Reino dos Céus. E mais do que isso… Eles seriam os primeiros herdeiros desse Reino.
Aquelas palavras de Jesus lhes davam novo ânimo diante dos desconfortos provocados pelas injustiças. E não só as palavras, mas os gestos, o olhar, as ações do Filho de Deus, além de sua pobreza e simplicidade. Tudo em Jesus era motivo de atração dos pobres e excluídos. No novo Reino, eles eram chamados de bem-aventurados.
E essa mensagem libertadora, ao mesmo tempo que é tão antiga, é tão nova. Serve também para suscitar profetas que falem, que lutem e que arrisquem suas vidas em favor dos sofredores do nosso tempo. Devemos ter muito cuidado para que o fermento da indiferença, do egoísmo, da ganância não contamine o nosso ser cristão. Há muitas pessoas que são incapazes de enxergar o rosto desfigurado de Jesus que se esconde no rosto dos pobres, dos indígenas, de tantos camponeses que não têm terra e de tantos marginalizados sem voz e sem vez.
Dom Oscar Romero foi um verdadeiro profeta que sacrificou a vida pelos oprimidos e que tanto questionou a astúcia dos opressores. Para ele, a Igreja deveria ser a casa de todos e os pobres deveriam ocupar os primeiros lugares. Certa vez, falou: “Nós que temos voz devemos falar pelos que não têm.” Esse foi o lema que motivou tantos profetas que surgiram na América Latina, um continente que historicamente é palco de muitas misérias.
Dom Hélder Câmara foi outro profeta que tomou sobre si a causa dos pobres e tantas vezes arriscou a vida para profetizar como Jesus, para dar força aos oprimidos como Jesus. Outro grande exemplo é o Papa Francisco que demonstra grande amor pelos pobres de Deus e denuncia as desigualdades com tanta autoridade, afinal, ele saiu da América – Latina e conhece de perto a marginalização dos pobres, já tendo convivido com muitos deles. Hoje, conduzindo a Igreja como pastor, ele atualiza aquele discurso que Jesus proferiu no Sermão da Montanha e sonha com uma Igreja despojada, acolhedora e que dê um bom lugar àqueles que o mundo desprezou.
Deus prefere os pobres, porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de Senhor Deus, único Bem e fonte de todo bem, única Riqueza e fonte de toda riqueza verdadeira!
Portanto, é preciso que nós, como Igreja, manifestemos também a nossa preferência pelos pobres. Afinal, o próprio Cristo sendo rico, fez-se pobre, sendo grande, fez-se pequeno, sendo poderoso, fez-se humilde. Assim, que todos nós, seus seguidores, saibamos imitá-lo e reconhecê-lo nos irmãos sofredores.

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