Editorial

A interligação de bacias do Rio São Francisco é, indiscutivelmente, imprescindível para os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Não cabe mais discutir a importância desse grande projeto, que vai trazer água para milhões de nordestinos. Afinal, quase três em cada quatro municípios do Semi-árido estão sob risco de desabastecimento de água em suas zonas urbanas. E isto é inconcebível em um Brasil prestes a ingressar no Primeiro Mundo. Porém, para resolver a falta de abastecimento de água no Nordeste, até 2025, serão necessários investimentos de, pelo menos, R$ 9,2 bilhões, perto do dobro do orçamento previsto para a obra de transposição de parte das águas do São Francisco.

Essa fotografia das sedes dos municípios nordestinos (que exclui as zonas rurais) aparece na atualização do Atlas Nordeste, da Agência Nacional de Águas, e reabre o debate sobre quais políticas públicas são necessárias para solucionar a falta de acesso à água, além dos investimentos bilionários com a revitalização (R$ 1,5 bilhão) e a transposição do rio (R$ 5,5 bilhões).

Esses dados são publiciados, num novo atlas. Técnicos da ANA estudaram 1.892 municípios e identificaram uma realidade crítica em 1.378 deles (73% do total). O foco do estudo é o semiárido, região castigada por seguidas estiagens que abrange estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais. Quando fala em risco de desabastecimento, a ANA aponta que essas cidades, caso não se mexam agora com projetos e investimentos, terão um quadro crítico de abastecimento d’água até 2025.

Isto significa que os nordestinos não devem ficar acomodados e tampouco sentirem-se realizados com a transposição das águas do velho Chico. Se importante – e efetivamente o é – o projeto não conseguirá redimir o crônico problema de falta de água que assola o Nordeste. Será paliativo. Desta forma, os nordestinos não deverão iludir-se e conformar-se com um projeto que parece meramente paliativo. A transposição do São Francisco é fundamental, mas não é tudo. O Nordeste não deve se desmobilizar pela água a que tem direito.

A partir destes indicadores, recolhe-se uma evidência e lança-se um alerta: no primeiro caso, é notório que estresses climáticos e a ação ambientalmente predatória do homem juntam-se para formar um quadro de extrema gravidade — não fosse a água um elemento vital para toda a sobrevivência do planeta; no segundo, é crucial que o poder público e a sociedade em geral atentem para a necessidade de cuidar da água, em sentido amplo.

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