A Igreja do Papa Francisco.

Amanhã, dia 15 de maio, é Pentecostes. Festa da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos, dando início à Igreja de Cristo. De longa tradição, o Espírito Santo é visto como alma e vida da Igreja. Já nos inícios, os Apóstolos escreviam assim: “Nós e o Espírito Santo decidimos…” No sentir da Igreja, é o Espírito Santo quem ilumina e dá força, transmite os seus sete dons a nós cristãos. E o faz de modo especial com relação à ação do Papa, desde a escolha do seu nome para a chefia da comunidade cristã e na inspiração de suas ações.

 

A referência ao Espírito Santo vem a propósito quando trago para o Em Dia com a Igreja desta semana a interessante análise que, em dez pontos, Victor Colina, teólogo jesuíta espanhol, vivendo hoje na Bolívia, faz da Igreja comandada pleo atual papa Francisco. Depois de afirmar que o que Francisco diz e faz não é senão traduzir o Evangelho para o mundo de hoje, sua análise parte da pergunta: “Depois de poucos anos, qual é o balanço do pontificado de Francisco, qual é a imagem da Igreja de Francisco que vai se desenhando? Quais são as características da Igreja segundo Francisco?”

 

E salienta as mudanças que percebe como fazendo parte do projeto de Francisco para a Igreja de hoje:

  1. De uma Igreja poderosa, distante, fria, endurecida, medrosa, reacionária, da qual as pessoas se afastam e abandonam… a uma Igreja pobre, simples, próxima, acolhedora, sincera, realista, que promove a cultura do encontro e da ternura. O novo Bispo de Roma, Francisco, reconhece­se pecador e pede orações; recorda que a Igreja necessita de uma conversão e uma contínua reforma evangélica, uma reforma à moda Francisco de Assis.

 

  1. De uma Igreja moralista obsessivamente preocupada com o aborto, com o controle de

natalidade, com o casamento homossexual… a uma Igreja que vai ao essencial, que se centra em Jesus Cristo contemplado e adorado, recupera o Evangelho, anuncia a grande Boa Notícia da salvação em Cristo, pois Jesus é o único que atrai; quer difundir o cheiro do Evangelho de Jesus, pede aos jovens que não se envergonhem de ser cristãos, que coloquem Jesus Cristo no centro das suas vidas, a fé em Jesus Cristo é coisa séria, não uma fé descafeinada. Não pode ser um cristianismo de meras devoções, sem Jesus. O Papa, assim como Pedro, não tem ouro nem prata, mas traz o mais valioso: Jesus Cristo, Ele é a única riqueza. Mas um Jesus Cristo morto e ressuscitado; não se deve ficar no sepulcro, não se deve ser cristão de quaresma sem Páscoa… A alegria do Evangelho enche o coração de todos os que se encontram com Jesus.

 

  1. De uma Igreja centrada no pecado e que fez do sacramento da confissão uma tortura e converteu o acesso aos sacramentos em uma alfândega inquisitorial… a uma Igreja da misericórdia de Deus, da ternura, da compaixão, com entranhas maternais, que reflete a misericórdia do Pai, uma Igreja, sobretudo hospital de campanha que cura feridas de emergência, que cuida da criação, na qual os sacramentos são para todos, não só para os perfeitos. A convocação de um Sínodo sobre a Família, já encerrado, e o questionário que enviou e que tratou de temas pastorais urgentes como a situação dos divorciados recasados, a união de homossexuais, as relações pré­matrimoniais, o controle de natalidade e o magistério sobre a moral sexual… indicava que havia um desejo de ampliar o campo da misericórdia e estendê­lo a todas as situações conflitivas.

 

  1. De uma Igreja centrada nela mesma, auto-referencial, preocupada com o proselitismo… a uma Igreja dos pobres preocupada sobretudo com a dor e o sofrimento humano, a guerra, a fome, o desemprego juvenil, os anciãos, onde os últimos sejam os primeiros, onde não se possa servir a Deus e ao dinheiro; uma Igreja profética, livre em relação aos poderes deste mundo; na Evangelii Gaudium afirma que o atual sistema econômico baseado na idolatria do dinheiro é injusto, pois enriquece alguns poucos e converte uma grande maioria em massas sobrantes, é um sistema excludente que mata; por isso, lança um “não” a uma economia de exclusão, um “não” à nova ,idolatria do dinheiro, um “não” ao dinheiro que governa em vez de servir, um “não” à desigualdade que gera violência.

 

  1. De uma Igreja fechada em si mesma, relíquia do passado, com tendência a olhar para o próprio umbigo, com sabor de estufa, que espera que os outros venham até ela… a uma Igreja que sai às ruas, “rueia a fé”, vai às margens sociais e existenciais, às fronteiras, aos que estão longe, mesmo sob o risco de sofrer acidentes; não teme uma Igreja minoritária e pequena, contanto que seja semente e fermento, que abra caminhos novos, que vá sem medo para servir, uma Igreja ao ar livre, que sai às sarjetas do mundo, uma Igreja em estado de missão.

 

  1. De uma Igreja que discrimina os que pensam diferente, os diversos, os outros… a uma Igreja que respeita os que seguem sua própria consciência, as outras religiões, os ateus, os homossexuais, dialoga com não crentes, com judeus, nossos irmãos maiores, uma Igreja de portas abertas, atenta aos novos sinais dos tempos.

 

  1. De uma Igreja com tendência restauracionista e que tem saudades do passado… a uma Igreja que considera que o Vaticano II é irreversível, que é preciso implantar suas intuições sobre a colegialidade, evitar o centralismo e o autoritarismo no governo, e caminhar em meio às diferenças. O próprio título de Bispo de Roma é uma confirmação da colegialidade episcopal, da colegialidade com seus irmãos bispos. O Papa reconhece que não tem resposta para todas as questões, que é preciso reformar o papado, que é preciso dar responsabilidades aos leigos, dar maior protagonismo à mulher, desclericalizar a Igreja, pois o clericalismo não é cristão.

 

 

  1. De uma Igreja com pastores fechados em suas paróquias, clérigos de despacho, que buscam fazer carreira, que estão no laboratório e às vezes acabam sendo colecionadores de antiguidades, com bispos que sempre estão nos aeroportos… a pastores que cheiram a ovelhas, que caminham na frente, atrás e no meio do povo. O carreirismo é a lepra do papado, a cúria é vaticanocêntrica e facilmente transfere sua visão ao mundo.

 

  1. De uma Igreja envelhecida, triste, com gente com cara de cadáver ou com sorriso de aeromoça… a uma Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência, sem nada a ocultar, com flores na janela e cheiro de lar, onde os jovens sejam protagonistas, pois são como a menina dos olhos da Igreja.

 

  1. De uma Igreja ONG piedosa, clerical, machista, monolítica, narcisista… a uma Igreja Casa e Povo de Deus, mesa mais que estrado, que respeita a diversidade, onde os leigos, as mulheres, as famílias jogam um papel relevante. É a Igreja de Aparecida, de discípulos e missionários para que os nossos povos em Cristo tenham vida, uma casa eclesial onde reina a alegria.

 

Na realidade, depois de poucos anos de sua gestão pastoral como Bispo de Roma podemos afirmar que com Francisco retomou­se o Vaticano II que havia ficado de algum modo silenciado e estacionado. O papa Francisco não inventa nada de novo, reassume o impulso pentecostal do Vaticano II. A Igreja do Papa Francisco no fundo é a Igreja do Vaticano II, a mesma Igreja que sonhou João XXIII e que até agora havia sido fortemente freada e diluída. Volta a renascer uma primavera eclesial.

 

Questionamentos e interrogações É muito o que o Papa Francisco realizou em seus primeiros anos de pontificado, mas é muito o que ainda resta por fazer. Cabe a Francisco levar a término questões que o Concílio iniciou, mas não chegou a concretizar, como o modo de eleição dos bispos, fazer que os sínodos sejam não apenas consultivos, mas deliberativos, favorecer a autonomia e a responsabilidade das Igrejas locais… E enfrentar o que o Vaticano II não tratou, mas que são tarefas e desafios urgentes: reforma do papado e da cúria, abandono de chefatura do Estado Vaticano, mudar o modo de eleição do Papa, revisão da estrutura de cardeais e núncios, abandonar o episcopado honorífico e sem diocese real dos dirigentes dos dicastérios da cúria, repensar o papel da mulher na Igreja, promover a ordenação de homens casados, revisar a moral sexual e matrimonial, a pastoral com os divorciados recasados, o problema da homossexualidade, a relação com os teólogos, assumir o grande desafio ecológico…

 

Devemos afirmar que é uma ilusão pensar que as reformas e mudanças eclesiais vêm

exclusivamente de cima. A história nos ensina que as grandes transformações da Igreja (como também da sociedade…) surgiram debaixo para cima, a partir de onde ordinariamente age o Espírito: desde os leigos, os pobres, as mulheres, a gente marginalizada. Cabe a todos renovar e reformar a Igreja a partir do Evangelho, convertendo­nos a Jesus de Nazaré e ao seu Reino. Sem a cooperação e a iniciativa da base, a Igreja nunca vai mudar. “Vinde Espírito Santo! Enchei os corações dos vossos fiéis”!

           *Coordenador da Comissão Diocesana de Doutrina e da Fé e Pároco de Cruz\

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