A QUESTÃO HUMANA É SEMPRE UMA QUESTÃO RELIGIOSA

Oportuno pronunciamento fizeram, na semana passada, os bispos da Alemanha, em documento que aborda questões da tecnologia genética e biomédica.
Não podemos esperar que eles analisem todos os temas e problemas das ciências da vida, entre elas as biociências, incluindo as ciências agrárias, e a bioinformática, a biomedicina e a farmácia. Mas, para alguns questionamentos da atualidade, aqui é oferecida a posição ética da Igreja. Esta, repetidamente tem, por exemplo, se manifestado sobre interrupção da gravidez e sobre eutanásia. A vida humana é sagrada e não está à disposição, nem no seu início nem no seu término. Por isso, o aborto e a eutanásia continuarão sendo objeto de controvérsias éticas e políticas também nos anos vindouros. Aqui, são focalizados principalmente os problemas resultantes das técnicas reprodutivas, especialmente da clonagem, bem como da decifração do genoma humano, oferecendo ajudas para orientação ética nessa área. Alguns trechos mais significativos:
“Estamos vivendo um abalo nos valores básicos da nossa sociedade em razão das novas possibilidades das ciências da vida. Daí que é indispensável familiarizar-se de forma abrangente com os novos conhecimentos e seus efeitos, e também discutir e expor os limites éticos que se apresentam para sua aplicação. A questão central é de como as novas possibilidades abertas pelas ciências da vida podem ser aproveitadas para benefício integral do homem e de como será possível impedir eficazmente seu abuso.

LUZ NOVA SOBRE A VIDA HUMANA
Falou São João Paulo II na Pontifícia Academia de Ciências: “A progressiva descoberta do código genético e os conhecimentos cada vez mais detalhados da organização do genoma constituem progresso dos conhecimentos científicos que desperta de imediato justificada admiração”. Os novos conhecimentos da tecnologia genética, especialmente da genética humana e da biomedicina, lançam uma luz nova sobre a vida humana

EM BUSCA DE ORIENTAÇÃO BASEADA NA FÉ CRISTÃ
Novos conhecimentos requerem que se examine se sua aplicação é eticamente aceitável. Aos olhos de muitas pessoas, as ciências naturais e a tecnologia já vêm há tempo perdendo sua aura de promessa e inocência moral. A atual discussão orienta-se por essas diferentes experiências e transcorre de forma correspondentemente acalorada.
Muitas pessoas se sentem inseguras e esperam orientação baseada na fé cristã. Afinal, uma correta interpretação do conceito de ciências da vida não inclui apenas a pesquisa das ciências naturais em sentido restrito, mas refere-se também às ricas contribuições para a compreensão da vida provenientes da religião, da antropologia, das ciências culturais, da filosofia e da ética. A fé e a teologia, bem como as tradições éticas, contêm pontos de vista ponderáveis para a atual discussão, repositório que são de amplo conhecimento e profunda experiência de vida sobre a interação com o mundo e seu manejo favorável à vida, oferecendo claros critérios de julgamento para as ciências da vida.

O SER HUMANO DO PONTO DE VISTA BÍBLICO
A questão humana é sempre uma questão religiosa e de cosmovisão. À luz da Bíblia, a Igreja parte do princípio de que a incumbência criativa e cultural bíblica – “Dominai a terra” (Gn 1, 28) e “Cultivai e guardai-a” (Gn 2, 15) – também é aplicável à avaliação das atuais possibilidades de intervenção pelo homem. A natureza não é intocável: ela pode e deve ser moldada pelo homem. Caso contrário, o homem ficaria completamente incapacitado de agir em face da natureza. É característica do homem como ente cultural que ele participe da configuração da criação, moldando-a pelo uso da razão e utilizando-a responsavelmente.

A VIDA HUMANA É MAIS QUE UM FATO BIOLÓGICO
Segundo a fé judaico-cristã, Deus criou o homem segundo a sua imagem. Em vista disso, a vida humana é mais do que um fato biológico qualquer.
E a vida humana também é mais do que um objeto com o qual se possa lidar arbitrariamente. Pelo fato de Deus ter criado o homem à sua imagem, sua vida é sagrada. A vida não está à disposição do homem. Como todos os homens estão sob a proteção de Deus, ninguém pode abusar da vida do outro.
Como o homem não é produto do acaso, e porque também não foi ele próprio que se criou, ele não existe em regime de autonomia absoluta. Como criatura finita, ele não tem como garantir nem a si próprio, nem o sentido e o valor da sua vida. Ele vive dentro de limites preestabelecidos que não pode transpor. A imagem de Deus no homem também é o fundamento da sua dignidade. Esta significa que, antes de todas as suas realizações, capacidades e incapacidade, ele é incondicionalmente amado e aceito por Deus. Por isso, a dignidade humana é intocável e é atributo de todos, independentemente da avaliação de outros ou da sua auto-avaliação, de nascidos e não-nascidos, de sãos e doentes, de incapacitados e moribundos.

DEUS GARANTE O VALOR DE CADA VIDA HUMANA
Somente Deus pode dizer ao homem qual é o valor e o sentido da vida, cabendo a este aceitar isto em fé. A fé na ressurreição e a esperança da salvação lançam, assim uma nova luz sobre os problemas da biomedicina. Apesar de toda a dor, doença e incapacitação, o sofrimento e a morte do ser humano não constituem um destino sem sentido, mas podem ser experimentado e aceitos como componentes da nossa vida.
Mesmo argumentos não-teológicos levam a reconhecer que a dignidade humana deriva da própria condição humana e tem precedência sobre qualquer regulamentação jurídica”.

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