E VOCÊ? SERÁ QUE É MAIS CATÓLICO DO QUE O PAPA?

A Semana Santa nos faz trazer para esta coluna uma polêmica aberta por Bento XVI, ainda quando era reinante, como Papa: “quem foi mesmo o culpado pela morte de Jesus?”. A polêmica foi motivada pelo que Bento XVI afirmara na segunda parte do seu livro “Jesus de Nazaré-2ª. Parte. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição” cujo lançamento aconteceu, naqueles dias, no Vaticano, simultaneamente em sete línguas: alemão, italiano, inglês, espanhol, francês, português e polonês. A obra tem 448 páginas e um dos seus capítulos mais marcantes é aquele em que o pontífice dá nova interpretação ao Evangelho, no relato da Paixão e Morte de Jesus. Aqui, o Papa levanta a questão: “Quem eram precisamente os acusadores” de Cristo?

Em seu livro, Joseph Ratzinger fazia uma complexa avaliação teológica e bíblica e destacava que a expressão “os judeus” empregada por João, o Evangelista, na narração sobre a Paixão de Cristo (capítulos 12 a 19), “não indicava, de nenhum modo, o povo de Israel como tal” e “ainda menos tinha um caráter racista” porque João “era israelita, como Jesus e todos os seus”. A expressão “tem um significado preciso e rigorosamente limitado” e define “a aristocracia do Templo”, destaca Bento XVI, entendendo que eles queriam Jesus condenado à morte porque ele havia se declarado rei dos judeus e violara a lei religiosa judaica. Bento concluía que o “grupo real de acusadores” foram as autoridades do Templo e não todos os judeus da época.

Ratzinger, com o peso que tinha uma afirmação sua, por ser o Papa, tirava assim o estigma de deicida (assassino de Deus) que sempre pesou sobre o povo judeu. O entendimento do Papa sobre a questão foi aplaudido por muitos. Mas, houve também os que não concordavam.

IGNORANTIA ELENCHI: O QUE É ISSO?

Em torno da questão, não fosse o respeito que devemos ter para com as opiniões dos outros, muito do que vinha sendo dito, em discordância do que escrevera o Papa, era para ser visto mais como algo provocador de risos. Quando não, tido como puro deboche de gente preconceituosa ou contrariada com a atenção que em todos os lugares se dava à pessoa do chefe da Igreja Católica. Bento XVI era, sabidamente, um intelectual que dialogava com os mais apreciados intelectuais no mundo todo, inclusive com ateus militantes que não negavam que ele, dia a dia, os surpreendia nas posições que, mesmo como defensor de uma Igreja conservadora, vinha assumindo em assuntos da área política, da fraternidade, da construção da paz e a da boa convivência humana.

Lendo o que era dito, a vontade era dizer como se falava nas Universidades da Idade Média, quando numa disputa pública, se constatava um erro fundamental no interlocutor: “ignorantia elenchi!” (pronuncie: ignorância elénki), expressão latina que quer dizer ignorância dos elementos essenciais do tema e das suas relações.

O que não dá para se falar assim dá para rir. Senão, veja:

– “Este papa tá ficando é gagá…”; “O que é que interessa saber quem matou Jesus? Ele já não ressuscitou logo depois?! Então, é como se não tivesse morrido!”;

– “Resta saber se, em pleno século XXI, ainda há alguém na face da Terra que acredite que eles, os judeus, tenham matado Jesus.”;

– “Fico admirado como um homem tão “sábio” e “entendido” da Palavra de Deus diz uma coisa desta. Pois se pararmos para pensar, mesmo um pouco, como alguém pode ser culpado de morte se a pessoa continua viva?”;

– “Quem matou, então? Se não foram os judeus, quem foi? Os romanos executaram, mas quem de fato sentenciou Jesus não foram os sacerdotes judeus?”;

– “Para mim foram os romanos (isto para dizer que fora a Igreja Católica )!”;

– “O Papa precisa freqüentar o nosso fórum para aprender um pouco mais de Teologia.”;

– “ Como os Judeus poderiam levar esta culpa, pois a Palavra mostra que Jesus já os perdoou!”;

– “A verdade é que Deus mesmo é o próprio mentor da morte de Cristo!”;

– “Não existem culpados nesta cena, pois não houve assassinato, mas sim um sacrifício…”;

– “Não entendi as declarações do Papa Bento XVI – a Bíblia é clara! Quem matou Jesus fomos todos nós. Os nossos pecados! Não foram os judeus…”;

 –  “Quem é o Papa para retirar a culpa de alguém! Só Jesus tem este poder.”.

 Será que tantas afirmações não bastam? Para rir, ou dizer: “ignorantia elenchi”!?

 O QUE O PAPA QUIS MESMO DIZER?

No caso, não estava sendo reformado nenhum dogma, nem estava o Papa perdoando ninguém, como gente desentendida falou na polêmica. È claro que Ratzinger sabia que Jesus vive ressuscitado; que Jesus, na cruz mesmo, perdoara os que o mataram; que a morte de Jesus, o Filho de Deus, era um mistério revelado nas Sagradas Escrituras e nasceu do desígnio de Deus Pai; que Jesus caminhou para a morte livre e conscientemente; que o suplício de Jesus, a crucifixão, era o castigo dos romanos; que no pecado de Adão e Eva estava a origem do motivo que levou Jesus ao sacrifício, pagando pela remissão dos nossos pecados…

“Jesus de Nazaré” é um trabalho literário de reconhecida erudição. O primeiro volume, sobre o período que vai do Batismo no Jordão à Transfiguração, havia sido colocado à venda na Itália em 16 de abril de 2007, data do 80º aniversário de Bento XVI, com grande sucesso de vendas não só na Europa, mas em todo o mundo.  Foram mais de 50 mil livros vendidos no primeiro dia de lançamento, com duas tiragens de 420 mil exemplares.

A afirmação que, nesta segunda parte do livro, era feita, declarando não ser o povo judeu o culpado pela morte de Jesus, não devia ser entendida como a declaração de um dogma. Ratzinger não falava ali como ocupante do Trono de Pedro, nem mesmo como Bento XVI. Tão só como alguém interessado na verdade mal entendida ao longo da história. Naturalmente com culpa dos próprios membros da Igreja que ajudaram a construir, ao longo dos séculos após a morte de Cristo, uma visão preconceituosa sobre toda uma raça: o povo judeu, objeto, quantas vezes, de escárnio e vingança, sofrimentos e holocaustos.

Só na II Grande Guerra, no século passado, 6 milhões de judeus foram mortos. Criou-se um preconceito que tornou deicida, assassino de Deus, aquela gente toda. Não é sem razão que no vocabulário de nossa língua portuguesa acolhemos os termos “judiar”, “judiação”, carregados de conceito negativo. O que Ratzinger fez foi contribuir com seu estudo para corrigir a história transmitida até de maneira cultural. O que Bento XVI expõe no seu livro sobre a morte de Jesus e os judeus, é repetir o que já dissera o Concílio Vaticano II, já em 1965, em importante documento, quando negou a idéia de culpa coletiva do povo judeu pela morte de Cristo. Só isto.

 

SERÁ SÓ POLÍTICA A AFIRMAÇÃO FEITA POR BENTO XVI?

Houve quem visse no caso só uma atitude política. Tanto em tom negativo, como em tom favorável ao Papa. Em verdade, o papel dos judeus na morte de Cristo esteve na origem das grandes tensões entre as duas religiões, com os judeus tendo sido tratados de “deicidas” durante vários séculos por nós católicos. Não só com Bento XVI, mas muito antes, as relações entre judeus e católicos mudaram bastante. È só lembrar como a gente rezava a grande intercessão da liturgia da Paixão, na Sexta-Feira Santa.

A partir de João XXIII, e com o Vaticano II, a Igreja mudou o tom. João XXIII, na primeira Sexta-Feira Santa após sua eleição como Papa, em 27 de março de 1959, suprimiu totalmente a expressão. Eliminou da liturgia a fórmula tradicional, “oremos pelos pérfidos judeus”, substituindo-a com uma solução menos violenta: “oremos pelos judeus, para que Deus retire o véu que cobre seus corações e lhes faça conhecer Nosso Senhor Jesus Cristo”. João Paulo II, que foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga e um campo de concentração, sempre se referia aos judeus como “nossos irmãos mais velhos na fé”.  E Bento XVI até escolhera, para a Sexta Feira Santa, um novo texto, muito mais aproximativo. E hoje, rezamos assim: “oremos também pelos judeus, para que o nosso Senhor ilumine seus corações e para que reconheçam Jesus Cristo como o Salvador de todos os homens”.

Naqueles dias, uma associação de sobreviventes do Holocausto elogiou esta nova visão dos fatos, considerando a análise de Joseph Ratzinger em seu livro como um “momento importante” nas relações entre católicos e judeus. Este “repúdio teológico à acusação de deicida não apenas confirma os ensinamentos do Vaticano, mas rejeita a culpa coletiva dos judeus para uma nova geração de católicos”, declarou Elan Steinberg, vice-presidente da Associação americana dos Sobreviventes do Holocausto e de seus Descendentes.

E você, leitor, concorda ou discorda do Papa na questão?

* Coordenador da Comissão Diocesana da Doutrina e da Fé,  e Pároco de Cruz

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