Em Dia com a Igreja

E SANTO DE CASA FAZ MILAGRE?
No próximo dia 25 de outubro (quinta-feira), pela primeira vez na liturgia diária da missa, um brasileiro será objeto da veneração dos católicos. O santo daquele dia, no calendário litúrgico da Igreja, será o brasileiro Frei Galvão. Beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 25 de outubro de 1998, foi ele proclamado santo, em concorrida celebração especial, em São Paulo, no dia 11 de maio último, durante visita do papa Bento XVI ao Brasil.
Frei Galvão nasceu em 1739 de uma família profundamente piedosa e conhecida pela sua grande caridade para com os pobres. Batizado com o nome de Antônio Galvão de França, depois de ter estudado com os Padres da Companhia de Jesus, na Bahia, entrou na Ordem.dos Frades Menores, em 1760. Foi ordenado sacerdote em 1762 e passou a completar os estudos teológicos no Convento de São Francisco, em São Paulo, onde viveu durante 60 anos, até à sua morte, ocorrida a 23 de Dezembro de 1822.
Fundador do conhecido “Mosteiro da Luz”, em São Paulo, a vida de Frei Galvão foi marcada pela fidelidade à sua consagração como sacerdote e religioso franciscano, e por uma devoção particular e uma dedicação total à Imaculada Conceição, como filho e escravo perpétuo. Enquanto ele ainda vivia, em 1798, o Senado de São Paulo definiu-o «homem da paz e da caridade», porque era conhecido e procurado por todos como conselheiro e confessor, além de o franciscano que aliviava e curava os doentes e os pobres, no silêncio da noite. Canonizado, agora é santo de altar. Da nossa casa. E santo de casa faz milagre?

ESPIRITUAL.IDADE FAZ BEM À SAÚDE?
Num mundo fascinado pela ciência que parece negar a verdade do sobrenatural, pregando um novo ateísmo, são os próprios cientistas que estão vindo a público para afirmar resultados surpreendentes de suas pesquisas apontando o valor da fé na conquista da saúde perdida. A discussão começa a despontar. Muitos dos inumeráveis estudos científicos são realizados por importantes universidades estrangeiras e publicados em revistas especializadas em medicina, e também em revistas populares de divulgação.
É o que vejo, agora, relendo o que já comentamos aqui nesta coluna com o título: “Espiritualidade faz bem à saúde’. Ali estavam algumas perguntas que hoje as pessoas estão se fazendo: “A fé pode curar um paciente? Quem freqüenta a igreja fica menos doente ou até vive mais? E aquele doente que vai para a cirurgia com a medalha da santa na mão tem chances de se recuperar melhor do que o paciente cético?”.
Médicos de diferentes áreas em todo o mundo –independentemente de credo – buscam comprovação científica para a relação entre espiritualidade e saúde. Nos EUA, a maioria dos cursos de medicina possui, na grade curricular, disciplinas que discutem doença, fé, cura e espiritualidade com os futuros médicos e como abordar o assunto com seus pacientes.
Em parte, diz o psiquiatra Harold Koenig, diretor do Centro para Estudos da Religião, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke (EUA), esse “reencontro entre Deus e medicina” partiu dos pacientes, que estão exigindo maior humanização no atendimento, e de constatações científicas de que a crença religiosa pode influir –para o bem ou para o mal– na saúde do homem”.

MILAGRE? SUPERSTIÇÃO? AS OPINIÕES DE DIVIDEM.
O dia litúrgico do Frei Galvão vem trazendo à consideração da imprensa escrita e televisionada a popularidade do primeiro santo brasileiro, em razão das já conhecidas “pílulas do frei Galvão” entregues diariamente, no Mosteiro da Luz, aos seus milhares de devotos em busca da saúde. Milagre? Superstição? As opiniões de dividem. Tanto entre as pessoas do povo, como entre os mais esclarecidos.
Não é fácil julgar o comportamento do povo na sua prática religiosa. Fácil é dizer que tudo é fruto da ignorância religiosa, do atraso cultural, ou, o que é mais grave, rotular como mera idolatria ou superstição tais comportamentos, tolerados e até estimulados pela Igreja que vive e ensina a intercessão dos santos.
Estudiosos sérios da área da sociologia religiosa nos ajudam a ver a fé nos gestos do povo e ensinam que “a fé é um valor sobrenatural, mas sua manifestação é tipicamente humana, o que permite até a inclusão de elementos folclóricos.”
Não são de hoje as discussões, tanto nos meios religiosos, como também nos estudiosos do comportamento humano. Também nos que estudam a força da fé nas curas milagrosas, a religiosidade popular em torno dos santos da Igreja, as devoções do povo em multidão nas romarias e santuários, arrastado pela esperança de se ver atendido, os pagadores de promessas pelo cumprimento de um voto em razão da graça certa já alcançada.
Falam eles das festas populares brasileiras e de outros lugares cristãos. “Manifestações como essas, dizem, têm sua origem nos primeiros séculos da Igreja e substituíram rituais pagãos. Quando expressam valores verdadeiros, revelam não só uma cultura, mas o legítimo diálogo de um povo com o sagrado. São genuínas liturgias populares e não mero folclore, como alguns as rotulam numa visão muito superficial.”.
E acrescentam: O cristianismo não detém o privilégio dessas manifestações, assim, são “litúrgicas” as danças dos índios e das tribos africanas, as peregrinações dos hindus, a prostração dos muçulmanos, as purificações rituais da Índia, e tantas outras transmitidas de geração em geração. E concluem: “Daí que a beleza dos gestos de tais manifestações toca o espírito também do homem moderno. Quando termina a procissão, os fiéis já se preparam para a do próximo ano: cultura, tradição e fé dialogam harmoniosamente. O processo assemelha-se à catarse experimentada pelos gregos, quando assistiam à representação de uma tragédia”. O fato de que tradições estejam desaparecendo sob o impacto da modernidade é uma grande perda não somente cultural, mas também religiosa porque com elas desaparece a fortíssima emoção religiosa popular diante do simbólico. Certamente, isso contribui para que as pessoas procurem outras expressões para substituí-las. Os antropólogos podem discutir sobre o papel da racionalidade ou sobre a carga emotiva contida nesses gestos, mas para quem deles participa, trata-se de uma genuína demonstração de fé.”. Assim também pensava aquele homem do povo da historinha abaixo:

NÃO TEM “DIABO” NENHUM DO MUNDO…
Ele já faleceu. Faz pouco tempo. Fora, em vida, um daqueles católicos bem presentes nos atos de sua Igreja: missa diária, terço, caminhadas, procissões. Eu o conhecia bem. Morava numa cidade vizinha à minha terra natal. Ali era comerciante bem conhecido, e bem sucedido.
No pescoço, trazia sempre um cordão dourado, com muitas medalhas. Eram lembranças de suas muitas devoções. De muito boa conversa, todos sabiam: falava alto e positivo, tentando ser convincente naquilo que queria afirmar ou negar.
Foi uma filha dele quem me contou: Um dia, aproximou-se dele um crente evangélico, com muitos argumentos, tentando atraí-lo para a sua religião. Ele escutava atentamente. Depois de uma boa conversa, o irmão, num ar de deboche, e com a mão acenando em direção ao pescoço dele, cheio de medalhas, falou-lhe:
– Tire isso do seu pescoço… Isto é superstição… idolatria…
Sentindo-se agredido, fitou seu interlocutor e, tomando entre os dedos cada uma das medalhas, foi mostrando-as, uma a uma, ao irmão crente. Falava de modo bem ríspido:
– Olhe!. Aqui é Nosso Senhor… aqui é Nossa Mãe Maria Santíssima… este é São Francisco…. este é São Braz… esta aqui é Santa Edviges… aqui é meu padim padre Cícero… E não tem “diabo” nenhum do mundo que tire este cordão do meu pescoço…
E não tirou mesmo até o dia em que piedosamente foi chamado para a outra vida…
* Pároco de Cruz

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