Em Dia Com a Igreja

AMULHER E A AIDS é uma temática ainda pertinente para se debruçar e compreender as razões pelas quais tantas mulheres, em pleno desabrochar da juventude, são tristemente diagnosticadas com o vírus HIV. Fica um questionamento para todos nós: o que podemos fazer para reparar essa chaga social que destrói milhares de vida?

EM DIA COM A IGREJAPe. Valdery da Rocha*

O TRISTE ROSTO MAJORITÁRIO DA AIDS: A MULHER JOVEM

A conhecida teóloga da PUC-Rio, Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas, naquela Universidade, publicou na imprensa, em 2004, um contundente comentário abordando aspectos do impressionante e recente relatório das Nações Unidas sobre o vírus HIV e a AIDS. Segundo sua análise, “o vírus HIV e a AIDS por ele gerada têm hoje um rosto tristemente majoritário: o da mulher jovem. Antes identificado preferencialmente com outros grupos de risco, como os hemofílicos e os homossexuais, o vírus HIV afeta hoje, em quantidades assustadoras, mulheres na plenitude da vida, da atividade sexual, da fecundidade e da possibilidade de procriar”. E continua: “Dos mais de 37 milhões de adultos infectados pelo HIV, as mulheres são quase metade, passando a ser mais do que metade em regiões extremamente pobres do planeta, como a África Subsaariana”.

A FEMINIZAÇÃO DA POBREZA

Transpondo a reflexão para aspectos mais gerais, disse a teóloga: “A feminização da pobreza, que, há mais ou menos uma década, vem ocupando a atenção dos estudos de gênero mostrando que a pobreza no mundo tem rosto feminino, é agora acrescida por este terrível dado da saúde. Vivemos não apenas a feminização da pobreza, mas também a feminização da terrível doença infecto-contagiosa que ataca a imunidade dos seres humanos e vem fazendo milhares de vítimas em todos os cantos do mundo”.

Ao longo de sua reflexão, a renomada teóloga brasileira diz que esse quadro triste e desalentador “nos delineia uma humanidade cuja metade feminina, feita para amar, gerar, dar à luz, nutrir, alimentar e cuidar da vida está morrendo assolada pela doença que as forças da morte teimam em semear em seu corpo. Corpo criado por Deus, aberto e hospedeiro do amor e da vida, sede da fecundidade e da fertilidade que garantem a continuidade da espécie. Corpo que agora nos aparece atacado e agredido ainda em tenra idade, impedido de florescer e desabrochar.”

Após se perguntar sobre o que leva estas mulheres tão jovens, na melhor fase de suas vidas, pois na faixa de 15 a 24 anos, a se exporem a tão letal doença, o fantasma das gerações de hoje, apontou dois fatos: a pobreza e o ser mulher. E acrescentou: “Nas regiões que apresentam números altos e impressionantes do fenômeno, a pobreza levanta para a mulher uma barreira intransponível no acesso à educação e ao emprego. Sem oportunidade de sequer alfabetizar-se, sem acesso à educação superior e mesmo secundária ou primária, só resta à mulher o espaço doméstico, onde será praticamente refém do marido, do qual dependerá totalmente para sobreviver”.

A PARCEIRA TEMEROSA E PASSIVA

Referindo-se às situações humilhantes, cuja ocorrência é visível não apenas longe de nós, denunciou a lúcida teóloga católica o que qualquer conselheiro da área de família também conhece: “Essas mesmas mulheres jovens e cheias de sonhos românticos, como todas as suas parceiras de gênero e condição, terão muitas vezes que sofrer e enfrentar caladas um casamento não mais desejado, marcado por brutalidades, violências e dominações de toda espécie. Por não poder sair de casa para não correr o risco de morrer de fome, a mulher tem que suportar o sexo não mais querido ou desejado, sem força para exigir que o parceiro ou marido use preservativos, já que dele depende para tudo. É assim que o homem que chega em casa alcoolizado ou trazendo a marca de muitas aventuras extraconjugais encontrará uma parceira temerosa e passiva, com quem continuará mantendo relações sexuais, as quais acabarão por contaminá-la de forma grave e irreversível”.

POR UM NOVO ROSTO FEMININO

Fazendo coro com os que apontam os crimes contra a criança e os adolescentes, acrescentou: “Ao lado desse quadro desolador, ergue-se outro ainda mais terrível. O relatório aponta para o fato de que mulheres em muito tenra idade, não casadas, estão contraindo o vírus HIV e adoecendo de AIDS transmitido por homens cada vez mais velhos. Delineia-se aí um panorama onde a prostituição, o tráfico de meninas, o turismo sexual, tão comum hoje em dia, não só na África, mas bem perto de nós, vai matando toda uma geração que é obrigada a vender o jovem corpo, feito para o amor e a maternidade, para poder sobreviver. Os homens mais velhos, que pagam os favores das jovens meninas, vêm de uma vida dissoluta e deixam sua marca indelével naquele corpo usado para satisfazer o desejo efêmero em uma relação frustrante e violenta, que torna essas jovens mulheres mais vulneráveis ainda à infecção”. No final, a teóloga apela às mulheres vítimas do problema a não perderem a esperança, mas voltarem-se para o Deus da vida. E concluiu: “só n’Ele encontrarão a inspiração para construir um novo rosto feminino onde brilhe a vida, a esperança”.

* Pároco de Cruz

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