Em dia com a Igreja

No último dia treze, próximo passado, a Igreja festejou os cinco anos do início do papado de Francisco. E sua postura simples, mas carismática, vem conseguindo desde então a simpatia daqueles que veem no Papa Francisco a voz dos marginalizados e o coração do pastor humano, que acolhe a todos os que passam por situações dolorosas, especialmente as vítimas das guerras e os refugiados. O Papa Francisco escreve em seus documentos sobre a alegria. O ano da misericórdia veio para transbordar o amor de Deus.  Pede sempre não deixemos que nos roube a espiritualidade e fala sobre as Tentações dos agentes pastorais. A  pessoa não entende o caminho que está fazendo. Nós temos um patrimônio e precisamos fazer com que se multiplique, por isso devemos ter cuidado com os “ sete roubos”, dando o sim a espiritualidade missionária: “Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário”, entusiasmo vem do grego e quer dizer DEUS DENTRO DE MIM. “Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização”: São Paulo também diz: Ai de mim se eu não evangelizar!; “Não deixemos que nos roube a esperança”; “Não deixemos que nos roube a comunidade”, ela é o patrimônio de nossas relações, quando não comugamos a vida em comum estamos roubando a comunidade; “Não deixemos que nos roubem o Evangelho”, estão comercializando o Evangelho; “Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno”, devemos viver uma relação fraterna; “Não deixemos que nos roubem a força missionária”, somos missionários e missionárias, devemos retomar os elementos indicadores do espírito missionário. Ir. Carminda Amélia Carvalho Alves, mrcj

                                                                                                                                               

EM DIA COM A IGREJA – Pe. Valdery da Rocha*

e-mail: padrevaldery@superig.com.br

            “ESSE PAPA FRANCISCO É O CARA!…”

É necessário um olhar ainda para a Exortação Apostólica Evangellii Gaudium do Papa Francisco. Um texto, em estilo aberto, onde o Papa vai expondo, de maneira didática e positiva, o que ele, como autoridade maior, gostaria de ver acontecendo na Igreja Católica.

O Papa vem sendo objeto de notícia na mídia. O assunto não esgota. Na medida em que o tempo vai passando, nem a TV, nem os jornais do mundo todo, diminuem o interesse pela vida e ação do papa Francisco. Também entre ateus e indiferentes. Uma paroquiana minha me diz agora: “Esse papa Francisco é o cara!….” O novo Papa ainda é até capa de revistas e indicação para prêmios internacionais…

Parece-nos relevante destacar uma das muitas características exaltadas nos modos de ser, de pensar e agir do atual chefe da Igreja: a coerência. Faço-o para dizer que suas colocações teológicas e pastorais não são de agora, mas remontam à sua vida na Argentina, onde era Arcebispo de Buenos Aires.

Agora, toda a imprensa vem comentando a atual  Exortação Apostólica. Como marketing, foi lançada no dia do encerramento do Ano da Fé. O documento que traz no título: Evangelli Gaudium (A alegria do Evangelho) tem 200 páginas, escritas por ele mesmo, Bergóglio. Está dividido em cinco capítulos. No início do texto, o Papa explica que, com a Exortação, quer “convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja Católica nos próximos anos”.

Não se escusa a fazer severa crítica à própria Igreja, da qual é o Pastor, sucessor de Pedro, lançando um projeto de “conversão do papado”, denunciando a guerra pelo poder dentro dos muros da Santa Sé, e propondo a “descentralização” da Igreja e apresentando o plano da reforma a ser feita no Vaticano, a maior, em pelo menos meio século. Na reforma proposta, o Papa Francisco pretende tornar a Igreja Católica mais missionária, misericordiosa e atuante na defesa dos pobres e dos oprimidos.

No documento, Francisco compila as prioridades estabelecidas em oito meses de homilias, discursos, entrevistas e as inclui em um contexto mais amplo no qual visa a revigorar o entusiasmo evangelizador em um mundo marcado pela indiferença, pela secularização e por uma enorme desigualdade de renda.

 POR UMA IGREJA CATÓLICA MAIS FRANCISCANA

Nem o próprio Papa estaria isento da reforma. Sua meta é a de promover uma “conversão do papado para que seja mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe quis dar e às necessidades atuais da evangelização”.

O recado é claro: promover uma “saudável descentralização” na Igreja, num gesto inédito vindo justamente do chefe da Igreja que representou por séculos a centralização da instituição e, via Cúria Romana, parecia não querer repartir poderes. A esperança é de que as Conferencias Episcopais, do tipo CNBB, a do Brasil, possam contribuir para “o sentido de colegialidade”. Colegialidade, um ensinamento do Vaticano II que, nestes cinqüenta anos,  só muito timidamente aconteceu.

A burocracia e a aristocracia da Santa Sé também precisam ser revistas. “Nesta renovação não se deve ter medo de rever costumes da Igreja não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns até bem profundamente enraizados ao longo da história”.

A descentralização apontaria até mesmo para a abertura de espaços para diferentes formas de praticar o catolicismo. “O cristianismo não dispõe de um único modelo cultural e o rosto da Igreja é multiforme”, escreveu o Papa. “Não podemos esperar que todos os povos, para expressar a fé cristã, tenham de imitar as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história”. Para o Papa, os teólogos precisam ter em mente “a finalidade evangelizadora da Igreja”.

UMA IGREJA DE PORTAS ABERTAS

Abertura – Um dos pontos centrais é ainda a abertura da Igreja aos fiéis. “Precisamos de igrejas com as portas abertas” para evitar que aqueles que estão em busca de Deus encontrem “a frieza de uma porta fechada”. “Nem mesmo as portas dos Sacramentos se deveriam fechar por qualquer motivo”, escreveu. O Papa Francisco reafirma preferir uma Igreja “ferida e suja por ter saído pelas estradas, a uma Igreja… preocupada em ser o centro e que acaba por ficar prisioneira num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se algo nos deve santamente perturbar é que muitos dos nossos irmãos vivam “sem a amizade de Jesus”, fala o Papa, no item 49.

O Papa reitera “a força evangelizadora da piedade popular” e incentiva a pesquisa dos teólogos.

Poder – O documento ainda lança severas críticas a padres e eclesiásticos. O Papa pede que se evite as “tentações” do individualismo e alerta que “a maior ameaça é o pragmatismo incolor da vida cotidiana da Igreja, quando na realidade a fé se vai desgastando”.

Até mesmo a homilia (sermão feito nas missas) é alvo de preocupação do Papa. “São muitas as reclamações em relação a este importante ministério e não podemos fechar os ouvidos.”. Bergóglio insiste que “ela não deve ser nem uma conferência e nem uma aula, e temos de evitar uma pregação puramente moralista”.

Exorta, no entanto, a não se deixar levar por um “pessimismo estéril” e a sermos sinais de esperança aplicando a “revolução da ternura”.

Bergoglio também ataca os religiosos que têm “um cuidado ostensivo da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas sem que se preocupar com a inserção real do Evangelho” às necessidades das populações.

O Papa ataca o “elitismo narcisista” entre os cardeais. “O que queremos? Generais de exércitos derrotados? Ou simplesmente soldados de um esquadrão que continua batalhando?”, questionou. E pede: “A nova Evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados”.

Sublinha a necessidade de fazer crescer a responsabilidade dos leigos, mantidos “à margem nas decisões” por um “excessivo clericalismo”.

Até desafia, ensinando: “não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários». Afirma que “ainda há necessidade de se ampliar o espaço para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, em particular “nos diferentes lugares onde são tomadas as decisões importantes”. Os jovens devem ter “um maior protagonismo”.

O ATUAL SISTEMA ECONÔMICO É INJUSTO

Bergoglio deixa claro a posição da Igreja contrária ao aborto, e ensina  que o tema é inegociável por encontrar-se no núcleo da defesa que faz a Igreja Católica da dignidade de cada ser humano. “Entre os fracos que a Igreja quer cuidar estão as crianças em gestação, que são as mais indefesas e inocentes de todos, às quais hoje se quer negar a dignidade humana”, escreveu.

Economia e política – Em sua Exortação, o Papa Francisco ainda destina uma parte importante de seu texto à situação mundial e não deixa de atacar o modelo econômico que prevalece. “O atual sistema econômico é injusto pela raiz”, declarou. “Esta economia mata porque prevalece a lei do mais forte”, concluiu.

A atual cultura do “descartável” criou “algo de novo”: “os excluídos não são ‘explorados’, mas ‘lixo’, ‘sobras’. Vivemos uma “nova tirania invisível, por vezes virtual” de um “mercado divinizado”, onde reinam a “especulação financeira”, “corrupção ramificada”, “evasão fiscal egoísta”, denunciou.

* Teólogo e Paróco de Cruz

%d blogueiros gostam disto: