NÃO SÓ DE CALVÁRIOS VIVERÁ A SEMANA SANTA QUE COMEÇA AMANHÃ…

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A notícia é referência para todas as paróquias e comunidades da Igreja. Não só de Calvários viverá u a Semana Santa. Também de Cenáculos e túmulos vazios.

Na grande semana que  se inicia, o cultural sentimento de compaixão, que molda o jeito de ser do brasileiro, acentuará  o sofrimento e a paixão de Cristo, através das liturgias nas igrejas, e nos teatros de rua, filmes e noticiários da mídia,  Pouco se falou do que viveu Jesus no Cenáculo da Ceia e na sua vitória pela Ressurreição.

O Tríduo Pascal irá  acentuar o gesto de Jesus, criativamente antecipando-se à sexta-feira e ao domingo da Ressurreição, para, na quinta-feira, entregar à sua Igreja o memorial da salvação que conquistou para a humanidade: a Eucaristia.

“Isto é meu Corpo! Tomai e Comei. Este é meu Sangue! Tomai e bebei” marcará a solene Liturgia da tarde de quinta-feira da Semana Santa em todas as Paróquias, pela vivência do mistério da Ceia do Senhor, mistério renovado em cada Missa que celebramos.

Sobretudo quando reza a Missa, a Igreja sempre falou sobre o pão e o vinho: é a presença real de Jesus. Esta é uma das verdades centrais ensinadas pela Igreja Católica. Ela é mesmo um dogma, para usar o termo técnico do linguajar teológico. A expressão, diante de um mundo cuja característica básica é a mudança, soa antiquada e nada condizente com o espírito da modernidade sabidamente reticente com relação a qualquer afirmação categórica. Na história dos dogmas, que sempre está em evolução, está que a Igreja, ao longo de todos os tempos, colocou em evidência a Eucaristia. Desde o início, com os Apóstolos e as primeiras comunidades, até os nossos dias; desde a “fracção do pão” de que fala Atos dos Apóstolos, da Bíblia, até à Missa, Ceia do Senhor, ou Celebração Eucarística, para usar os termos de hoje.

Após a cisão protestante, no século XVI, nem sempre foi ponto pacífico entre os que seguem a Cristo, a interpretação daqueles relatos sobre a Ceia, guardados nos Evangelhos e no Atos dos Apóstolos. Falo da Eucaristia, da Missa como momento de partilha e de alimentação com o Corpo e Sangue de Cristo.Assim, a Igreja Católica mostra na história do dogma a sempre repetida interpretação do texto bíblico como falando de presença real de Jesus no pão e no vinho da Missa. As divergências se deram somente na compreensão no nível racional sobre como a transformação se dava. Aí entravam não mais a visão teológica mas o olhar filosófico. As questões não eram de teologia da Eucaristia, mas, como ainda hoje pode acontecer, de filosofia da Eucaristia.

É UMA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO

Algo diferente do que pensam e crêem todos os segmentos católicos se dá no campo das igrejas ditas evangélicas que, em sua quase totalidade, têm a presença de Jesus, na Ceia que celebram, apenas como memória, não como realidade. Por que tão acentuada diferença quando os textos lidos são os mesmos? Nada a estranhar. È uma questão de interpretação. O movimento protestante do século XVI, origem de tudo o que veio depois, tem como princípio de leitura bíblica a livre interpretação. Em termos mais abertos: cada um interpreta como quer. Católicos, individualmente, não interpretam a Bíblia. Compete à Igreja, assistida pelo Espírito Santo, fazer para nós tão exigente ação. A nós, nos cabe seguí-la. É neste sentido que, quando em ato de fé, dizemos: “Creio na Santa Igreja…”

Falar da Eucaristia é falar de mistério, de algo fora do alcance da compreensão da razão e da investigação pelo conhecimento da ciência humana.

Semelhante ao que nos referimos acima, que a missa seja um mistério é coisa sempre vivida e ensinada na Igreja, não só nos primeiros tempos da vida cristã, também hoje. Quando o padre, na celebração da missa, termina as orações da consagração do pão e do vinho, após elevá-los em apresentação aos fiéis, solenemente diz: “Eis o mistério da fé”.

Sobre estas realidades, é como diz a conhecida sentença: “ Lex orandi, lex credendii”, ou seja, deve-se crer tal como é dito na oração, ou: “se quer ver em que é que a Igreja crê, veja como ela reza”.

EM BUSCA DO MISTÉRIO ESCONDIDO NA “MISSA CATÓLICA”

Lembro-me do que vi num interessante livro que li recentemente e sobre o qual já me referi nesta coluna. O autor, alguém que antes não era da Igreja Católica, falava da Eucaristia. Começou a crer na Eucaristia como a Igreja crê, rezando com ela a Missa. O título do livro: “O BANQUETE DO CORDEIRO, a missa segundo um convertido”. Uma publicação das Edições Loyola que já está na sétima edição brasileira. Tem 157 páginas. A edição original, em inglês, foi publicada em 1999. Escrita por um pastor evangélico calvinista, Scoth Hahn, residente nos Estados Unidos, que se converteu ao Catolicismo ao assistir, com a curiosidade de um estudioso e pela primeira vez, uma Missa. De súbito, ele percebeu a chave para interpretar o mistério da Missa: o livro Apocalipse, da Bíblia. Ao mesmo tempo começou a ver na Missa a chave para interpretação do Apocalipse. Como escreveu o apresentador da edição brasileira do livro: “Nisto ele retoma o pensamento dos padres orientais do século II ao século IV.”.

         Deixemos que o próprio autor no-lo apresente. Suas primeiras palavras são de lamentação: “De todas as coisas católicas, não há nada tão familiar quanto a missa. Com suas orações, seus hinos e seus gestos sempiternos, a missa é como um lar para nós. Contudo, em sua maioria, os católicos passam a vida sem ver além da superfície de preces memorizadas. Poucos vislumbram o forte drama sobrenatural de que participam todo domingo”.

Em seguida, com o título “O que descobri quando participei pela primeira vez da missa”, escreve o capítulo Um, que transcrevo aqui na íntegra:

“Ali estava eu, incógnito, um ministro protestante à paisana, esgueirando-me nos fundos de uma capela em Milwaukee para par­ticipar pela primeira vez da missa. A curiosidade me arrastara até lá e eu ainda não tinha certeza de que fosse uma curiosidade saudável. Ao estudar os escritos dos primeiros cristãos, encontrei inúmeras referências à “liturgia”, à “Eucaristia”, ao “sacrifício”. Para aqueles primeiros cristãos, separada do acontecimento que os católicos de hoje denominam “missa”, a Bíblia – o livro que eu mais amava ­era incompreensível.

Eu queria entender os cristãos primeiros, mas não tinha qualquer experiência de liturgia. Por isso, persuadi a mim mesmo a ir ver, como uma espécie de exercício acadêmico, mas jurando o tempo todo que não ia me ajoelhar nem participar de idolatria.

Sentei-me na obscuridade, em um banco bem no fundo daque­la capela no subsolo. À minha frente havia um número considerável de fiéis, homens e mulheres de todas as idades.

Impressionaram-me suas reflexões e sua evidente concentração na oração. Então um sino soou e todos se levantaram quando o padre surgiu de uma porta ao lado do altar.

COM A BÍBLIA ABERTA AO MEU LADO!

Hesitante, permaneci sentado. Durante anos, como calvinista evangélico, fui instruído para acreditar que a missa era o maior sa­crilégio que alguém poderia cometer. Tinha aprendido que a missa era um ritual com o propósito de “sacrificar Jesus Cristo outra vez”. Por isso, eu seria um espectador, ficaria sentado, com a Bíblia aberta ao meu lado.

Entretanto, à medida que a missa prosseguia, alguma coisa me tocou. A Bíblia não estava só ao meu lado. Estava diante de mim ­nas palavras da missa! Um versículo era de Isaías, outro dos Salmos, outro de Paulo. A experiência era prodigiosa. Eu queria interromper tudo e gritar: “Ei! Posso explicar o que está acontecendo a partir das Escrituras? Isso é maravilhoso!” Não obstante, mantive minha posi­ção de espectador, à parte até que ouvi o sacerdote pronunciar as palavras da consagração: “Isto é o meu corpo … Este é o cálice do meu sangue”.

Então senti todas as minhas dúvidas se esvaírem. Quando vi o sacerdote elevar aquela hóstia branca, percebi que uma prece subia de meu coração em um sussurro: “Meu Senhor e meu Deus. Sois real­mente vós!”

A partir daquele ponto, fiquei, por assim dizer, tolhido. Não imaginava uma emoção maior que a que aquelas palavras provoca­ram em mim. Porém a experiência intensificou-se um momento depois, quando ouvi a comunidade reunida repetir: “Cordeiro de Deus … Cordeiro de Deus … Cordeiro de Deus”, e o sacerdote responder: “Eis o Cordeiro de Deus … “, enquanto elevava a hóstia.

Em menos de um minuto a frase “Cordeiro de Deus” ressoou quatro vezes. Graças a longos anos de estudos bíblicos, percebi ime­diatamente onde eu estava. Estava no livro do Apocalipse, no qual Jesus é chamado Cordeiro nada menos que vinte e oito vezes em vinte e dois capítulos. Estava na festa de núpcias que João descreve no final do último livro da Bíblia. Estava diante do trono do céu, onde Jesus é saudado para sempre como o Cordeiro. Entretanto, não estava preparado para isso – eu estava na missa!”. Aqui termina o texto.

Com tão elevada manifestação de misticismo, o autor, entretanto, não parece um alienado. Como diz ao longo do livro, procedeu em tudo com prudência e cuidado e não com a natural empolgação dos neoconvertidos. É capaz de perceber coisas negativas em nossas práticas celebrativas, o que fala também do seu espírito crítico. Vejo isto, por exemplo, nesta passagem do capítulo introdutório: “Talvez você responda que sua experiência semanal da missa é qualquer coisa, menos celestial. De fato, é uma hora desconfortável interrompida por choro de bebês, cantos monótonos entoados de forma dissonante, divagações, homilias sem pés nem cabeça e vizinhos vestidos como se fossem a um jogo de futebol, à praia ou a um piquenique”.

  * Professor do Instituto de Teologia e Pastoral (ISTEP) e Pároco de Cruz

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