O CARDEAL QUE NÃO VIROU PAPA… MAS FICOU NA HISTÓRIA…

Porque ficou na História, mesmo já tendo falecido (em 2007), ainda hoje pode entrar no Em Dia com a Igreja. É o que faço agora. Nascido no Rio Grande do Sul, seu nome de batismo era Leo Arlindo Lorscheider, nome que, ao abraçar a vida religiosa, trocou por Frei Aloísio Lorscheider, o qual conservou até o fim. Viveu 83 anos (1924-2007). Entrou para o Seminário com apenas 10 anos e ordenou-se padre, em 1948, antes de completar os 24 anos. Bispo, desde 1962, foi arcebispo de Fortaleza, durante 22 anos, de 1973 a 1995, quando, por problemas cardíacos, pediu ao Papa João Paulo II sua transferência para uma diocese menor, indo para Aparecida do Norte (São Paulo), onde permaneceu por nove anos, até 2004, quatro anos após ter renunciado ao cargo por ter completado os 75 anos (1999), como pede o Direito Canônico. Fez estudos superiores em Roma, onde se doutorou com nota máxima: summa cum laude. Ali também foi professor no Pontifício Ateneo Antoniano. Participou ativamente de todas as sessões do Concílio Vaticano II (1962 a 1965). Na CNBB, foi Secretário Geral e, por duas vezes, seu Presidente: de 1971 a 1975 e de 1975 a 1978. Escolhido Cardeal, em 1976, participou dos conclaves de eleição dos papas João Paulo I e João II, quando, segundo comentários da imprensa, recebeu boa votação para o cargo de Papa.

 

“EU SOU COMO UM PNEU CARECA…”

Guardo dele uma pequena recordação pessoal: ele, Cardeal e já próximo de deixar Fortaleza, foi me visitar no Hospital Cura d’Ars, onde eu havia me internado, com problemas de saúde. Na conversa, sobre sua própria saúde, ele comentou para mim, com sua voz bem característica: “Eu sou como um pneu careca. Roda muito bem, mas pode furar a qualquer instante!…”.

 

Um crítico de sua biografia assim falou dele: “Dedicou particular atenção ao clero, no qual procurou desenvolver um profundo sentido de comunhão eclesial e um singular impulso apostólico. A sua atividade junto aos organismos da Santa Sé foi intensa. Participou de todas as assembléias ordinárias do Sínodo dos Bispos, distinguindo-se nas suas intervenções devido à solidez da doutrina e à prudência pastoral. Sagrou quatorze bispos e ordenou inúmeros sacerdotes”.

Sua vida pastoral a serviço da defesa dos pobres e marginalizados, foi marcada, em março de 1994, por um seqüestro a que, juntamente com seus bispos auxiliares Dom Aldo Pagotto e Dom Edmilson, ainda hoje vivos, e cerca de doze membros do movimento de Direitos Humanos. Estando em visita aos presos do Presídio Paulo Sarasate, em Fortaleza, foi de surpresa, sufocado por um detento conhecido como Carioca ficando como refém dele num seqüestro que durou 20 horas, inclusive com alguns mortos entre detentos em fuga e policiais. Dentre os muitos textos que li sobre ele, guardei como bem significativo o que, ainda em 2007, escreveu dom Demétrio Valentini, na época, um dos bispos bem ativos do episcopado brasileiro: “Dom Aloísio partiu. No apagar das luzes de 2007, apagou-se a chama luminosa de sua privilegiada inteligência. Silenciou o coração bondoso que resistiu a tantos embates. Descansou o laborioso frade franciscano, o teólogo competente, o bispo dedicado, o cristão humilde e temente a Deus. Morreu o cardeal que cativou os corações e que deixa tantas saudades. Sentiremos sua falta. Sobretudo em nossas Assembléias. Não teremos mais sua análise de conjuntura teológica, vazada em linguagem simples, fluente, acessível, e ao mesmo tempo profunda, que nos fazia todos os anos, ao longo das presidências de Dom Ivo, seu primo, de Dom Luciano, seu amigo, e de Dom Jayme seu conterrâneo. Suas posições claras e serenas inspiravam confiança em todos, e davam firmeza para nossas opções pastorais”.

“O BISPO COMPLETO” – No parecer do Pe. Alberto Antoniazzi, continua Dom Demétrio, “Dom Aloísio era o “bispo completo”: humanamente dotado de exímias virtudes, que nele se traduziam em grande bondade que inspirava profunda confiança; uma esmerada formação teológica; um apurado senso pastoral; uma incansável disposição para o trabalho; uma lúcida percepção dos problemas, sem que lhe faltasse a intrépida coragem de se posicionar serenamente em favor das mudanças que a Igreja deveria fazer.

Foi eleito bispo no início de 1962, ano em que no mês de outubro iria começar o Concílio Vaticano II. Tinha todas as condições para mergulhar fundo nos debates conciliares, e prestar um valioso serviço aos seus colegas bispos brasileiros. Cedo valorizado pelo episcopado brasileiro, graças à perspicácia de Dom Hélder e do pequeno grupo de líderes que procurou organizar a “bancada” da CNBB no Concílio. Pude presenciar um lance decisivo. Os bispos do Brasil se hospedavam na “Domus Mariae”, a casa da Ação Católica italiana, que ficava ao lado do Pio Brasileiro. Logo na primeira reunião que realizaram, enquanto se organizavam as comissões do Concílio, Dom José Távora veio ao encontro de Dom João Aloísio Hoffmann, e perguntou: – É você o bispo teólogo? E Dom João respondeu: – Não, eu sou um pobre colono! O teólogo é aquele lá! E apontou para Dom Aloísio Lorscheider, a quem de imediato Dom Távora se dirigiu, convidando-o a coordenar as reuniões de estudo, que passaram a ser feitas com assiduidade na Domus Mariae ao longo de todo o Concílio. E foi lá que Dom Aloísio se firmou como baluarte do episcopado brasileiro.

Terminado o Concílio, ele foi cedo eleito secretário geral da CNBB, posto que lhe abriu o caminho para a Presidência, que ele exerceu por dois mandatos seguidos, nos duros tempos da ditadura brasileira, enquanto era também eleito presidente do Celam (Conferência Episcopal Latino-Americana), atingindo o auge de sua influência no final do pontificado de Paulo VI, que o admirava muito e lhe pedia com freqüência sua ajuda competente. E aí se inscreve um obscuro capítulo da vida de Dom Aloísio. No conclave em que foi eleito papa o Cardeal Luciani, Dom Aloísio era o cardeal que mais se destacava entre todos os que não eram italianos. E sobre ele se dirigiam as expectativas para a hipótese de ser eleito um cardeal que não fosse italiano. Consta que o próprio João Paulo I teria confidenciado que seu voto seria para Dom Aloísio. E por que então Dom Aloísio não foi eleito no conclave que se seguiu à repentina morte de Luciani? Aí entra o episódio que alterou a situação. Infelizmente, nos dias que antecederam a morte de João Paulo I, Dom Aloísio teve uma crise cardíaca, enquanto pregava retiro aos padres da diocese de Santa Cruz do Sul. Superada a crise, foi para o conclave para eleição do novo Papa. Dizem que em Roma tinham até preparado uma cadeira de rodas para receber Dom Aloísio no aeroporto, para mostrar que este cardeal estava fora de combate! O episódio teria evidente repercussão. Morto um papa de repente, não iam eleger um cardeal que tinha problemas cardíacos.

O BICO DA CHALEIRA ESTAVA TRANCADO – Só que a história comprova que ele teria tido um longo e, certamente, profícuo pontificado. Mas Dom Aloísio soube servir a Igreja com muita dedicação, mesmo não sendo papa. Tornou-se uma referência importante, por seu testemunho de humilde competência e de serena coragem. Em dois contextos, a presença de Dom Aloísio foi particularmente importante: para o povo simples, de quem ele foi pastor, e para a CNBB, que ele qualificou com sua lúcida contribuição teológica. A propósito, permito-me citar um episódio de cada contexto, entre muitos outros que poderiam ser lembrados.

Ele foi bispo de Fortaleza durante 22 anos. Era comovente ouvi-lo contar as peripécias de suas visitas pastorais no sertão do Ceará. Hospedava-se na casa da gente simples e humilde. Certa vez, a dona de casa ficou tão contente com a visita do bispo que resolveu preparar-lhe um café com o pó guardado em casa há muito tempo. Colocou a chaleira sobre o fogo para ferver a água, junto com o café. Mas na hora de servir o café, o bico da chaleira estava trancado. Uma pobre barata tinha se refugiado na chaleira, e tinha fervido junto com a água e o café. Quando a dona de casa se deu conta, não teve dúvidas: tirou a barata, e serviu o café! D. Aloísio, como bom teólogo, se lembrou das palavras do Evangelho: “Se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum” (Mc 16,18). E como bom pastor, tomou o café, para alegria de todos que assim puderam preparar para o bispo o melhor que podiam lhe oferecer!

Certa vez, na Assembléia da CNBB, Dom Possamai, Bispo de Ji-Paraná em Rondônia, pediu que a CNBB solicitasse a Roma a autorização para os Diáconos, na Amazônia, poderem ao menos conferir a Unção dos Enfermos aos moribundos, pois na Amazônia a maioria das pessoas morre sem este conforto cristão. Parecia um pedido teologicamente equivocado, como Dom Amaury Castanho logo reagiu, lembrando São Tiago: “se alguém está doente, chamem os presbíteros”. Foi então que Dom Aloísio, sentado atrás de Dom Amaury, tocou no ombro dele e falou: “Dom Amaury, a palavra ‘presbítero’ neste contexto não tem o mesmo sentido que lhe damos hoje!”. Dom Amaury ficou incomodado, mas silenciou diante do Cardeal. No intervalo, aproveitei para perguntar a Dom Aloísio, imaginando-o papa: – “Diante deste pedido, o que o senhor faria?”. Foi então que ele desabafou: – “Se fosse por mim, distribuiria o ministério de acordo com as necessidades do povo. Se a comunidade precisasse de um confessor, diria para alguém: você vai atender confissões e perdoar a todo mundo. Se precisasse de alguém para urgir os enfermos, incumbiria uma pessoa para cuidar bem disto. E se a comunidade precisasse de alguém para presidir a Eucaristia, simplesmente alguém da comunidade poderia ser designado para isto. Esta questão dos ministérios precisa ser revista de alto a baixo, desde o ministério de Pedro até o último ministério a ser implantado nas pequenas comunidades”. Assim pensava D. Aloísio. Este, o cardeal que quase virou Papa. Este, o cardeal que não ficou papa. Infelizmente!”, concluiu dom Demétrio. *Coordenador da Comissão Diocesana de Doutrina e da Fé e Pároco de Cruz

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