PODE O PAPA CHAMAR DE VOLTA OS PADRES CASADOS?

            O 16º Encontro Nacional de Presbíteros reuniu, nesta semana, em Aparecida (SP) cerca de 500 padres vindos de todos os Estados brasileiros. Estes Encontros acontecem de dois em dois anos. Além da animação da vida dos sacerdotes, o tempo é dedicado também à discussão de temas importantes da vida pastoral.

 Embora não seja tema principal, não faltará a sugestão de que seja colocado em debate a celibato na Igreja Católica para os padres e o desejo de que os padres casados voltem ao exercício do ministério para o qual foram ordenados. Lembro-me das vezes em que participei destes Encontros. Num deles o 6º (2 a 7 de fevereiro de 1996) até fui eleito Presidente da Comissão Nacional do Clero (CNC), que logo em seguida tomou o nome que tem hoje: Comissão Nacional dos Presbíteros (CNP), a qual dirigi por quatro anos. Na época, o tema “casamento dos padres” também já era objeto de questionamento, embora timidamente e sob vigilância dos órgãos do Vaticano que censurava sua discussão.

 O clima de abertura criado, na Igreja, pelo papa Francisco, dentre outros temas, tem dado lugar  também ao diálogo na consideração deste assunto tão polêmico, o qual esta coluna traz, mais uma vez, desejando que seus leitores fiquem, de fato, Em Dia com a Igreja, Também com relação à sua doutrina. ER o faço reeditando o que foi publicado aqui, há dois anos, mas que não perdeu sua atualidade. Tinha como manchete: “Do jeito que a imprensa gosta”, e era assim redigido: “Do jeito que a imprensa gosta… De modo especial nos noticiários e reportagens das TVs, assim aconteceu semana passada. A noticia envolvia um “padre casado” em Goiânia: padre Osiel, 62 anos, com cinco filhas. Há muito tempo fora ele afastado do ministério no clero de Goiânia. Continuava, no entanto, até agora, administrando os sacramentos da Igreja, porque, segundo ele, o povo pedia e ele não tinha por que negar.

 A notícia abria espaço para perguntas e comentários em torno do assunto: Quando a Igreja vai permitir que os padres casados voltem a exercer suas funções de sacerdote?  Como a Igreja pode tirar de alguém o direito de se casar? Por que a Igreja, que tem tão poucos padres, não ordena como sacerdotes homens já casados? Os sacramentos que aquele padre de Goiânia presidiu têm valor? Os que ele casou estão casados? 

 E uma pergunta mais geral: “E aí, como é que fica: pode ou não pode?; é padre ou não é?”.   Não é simples responder. Mas bem que o povo quer e deve ser bem informado. Há uma dificuldade em tratar a questão. É que, no meio das pessoas, sobre os assuntos polêmicos desta área, há um relativo desconhecimento do conceito verdadeiro dos termos utilizados na fala, quando não ignorância mesmo dos fatos da história: casamento de padre, votos , castidade, virgindade, celibato sacerdotal, visão cristã sobre a vida e a moral, leis disciplinares da Igreja, sistema não democrático, mas hierárquico, de condução da vida eclesial. Tudo assunto para especialistas, o que, de modo geral, os jornalistas não o são. E nem se pode esperar isso deles. Com honrosas exceções, são “generalistas”. E mais: como é próprio da mídia, sensacionalistas.

 

O CELIBATO (viver sem casamento) É UM DOS GRANDES DESAFIOS DO SACERDÓCIO

            Com relação à história, não é possível esconder: na Igreja Católica, o conflito com o celibato é um dos grandes desafios do sacerdócio.  Sempre houve padres casados. No início do cristianismo, conviviam livremente os dois tipos de padre: os que eram casados e os que não eram. Logo no princípio no século quarto (304) um Concílio tratou da questão, mas a obrigatoriedade de não se casar foi estabelecida somente séculos depois. E hoje só vigora para os padres católicos da Igreja Latina, da Igreja Ocidental, à qual nós aqui pertencemos.  Entre os orientais, mesmo entre católicos de outro rito que não o nosso, latino, eles quase 30% do total. A questão é um desafio para o Vaticano. Que o digam os padres casados do Brasil, mais de 6.000, muitos deles agregados no Movimento dos Padres é opcional o padre ser casado, ou não.  Só que os Bispos são escolhidos somente entre os padres que não se casam, isto é entre os que fizeram o voto de celibato. Entre nós, no Ocidente, não há abertura da Igreja para esta opção.

 È bom distinguir as coisas. Celibato é o estado de vida de quem, queira ele ou não ser padre, opta por continuar solteiro, ou seja, escolhe não se casar, mesmo tendo aptidão para a união conjugal, ou seja, para viver como marido (ou como esposa), formando família. Não é o mesmo que virgindade. Esta é a situação de quem, homem ou mulher, até o momento não realizou união sexual. Também não é a mesma coisa que castidade. Esta é correção e pureza no trato da vida corporal. Uma virtude moral. Pode ser praticada não só por quem é celibatário, mas também por quem é casado e vive normalmente a sua vida conjugal. Alguém pode não ser virgem e ser celibatário. Pode ser celibatário e não ser virgem. A confusão não é de agora. Lembro-me do bom-humor de Dom José, quando numa barbearia da cidade, um engraxate, limpando seus sapatos, timidamente levantou a cabeça para perguntar: – “Dom José, estou com vergonha, mas posso lhe fazer uma pergunta.”.  – “Diga, matuto…”, assim ele tratava a gente com intimidade. E ele: “É verdade que o senhor é virgem?” – “ Sim… Antes do parto, no parto e depois do parto…”. A conversa ficou por isso mesmo.

 

                                                  PADRES CASADOS: 150.000 

            Os padres casados depois da ordenação são hoje no mundo cerca de 150.000. São Casados e de suas Famílias (MPC), a antiga e bem articulada Associação Rumos que congrega hoje cerca de três mil deles. De dois em dois anos, realizam eles uma Assembléia. No final, sempre enviam um memorando a Roma, manifestando-se a favor do celibato opcional para os candidatos ao sacerdócio e pedindo ao Papa para serem eles mesmos readmitidos. Informam que Roma se fecha para a discussão do tema.  O MPC já fez 17 Assembléias, mas seus relatórios não recebem resposta.

            Mas não precisa ter dúvida, nem ficar nervoso. Nem ficar dizendo que a Igreja proíbe os padres de se casarem. A afirmação está mal colocada, tal como as perguntas referidas no início. E fora do contexto. No contexto, primeiro vem a doutrina ensinada de que os sacramentos pertencem à Igreja. É como no Batismo. Quando os pais levam a criança para o Batismo, o padre pergunta a eles: – “O que pedis à Igreja para esta criança?” – “O Batismo”, respondem os pais.

 O que pedis à Igreja…Semelhantemente, quando um jovem se sente chamado por Deus para ser padre, pede o Sacramento à Igreja que, através do Bispo, pergunta se ele está consciente, se aceita e quer viver como celibatário.  É a condição para aceitar o pedido. Aceitar para ser padre somente o que faz voto de celibato é uma opção jurídica da Igreja. Não é dogma, verdade de fé. É uma lei eclesiástica que tem, naturalmente, algum respaldo na Bíblia e na vida de seu fundador, Jesus. Os atuais legisladores até aceitam dizer que o celibato não é parte integrante do sacerdócio, mas estão convencidos da importância, para os padres, da vida em celibato, em razão mais especialmente do serviço da Evangelização a que foram chamados.

                       

                                   UMA VEZ PADRE, SEMPRE PADRE.

Ninguém duvida que a Igreja pode, até mesmo através de uma decisão do Papa, ordenar homens casados, permitir que padres se casem e que os já casados voltem aos seus postos na Igreja. O que tem sentido questionar é se a Igreja vai, e quando vai, mudar a legislação que está nos artigos (códigos) do atual Direito Eclesiástico (Direito Canônico). Na questão, nem os mais críticos e entusiasmados defensores de uma modificação, têm esperança de que isto vá acontecer proximamente.  

 É também doutrina certa que o sacramento da Ordem, que tornou o homem padre, não pode nele ser anulado. Uma vez padre, sempre padre. Mas há uma convicção de que, como está na lei da Igreja, só aos “padres” que são do clero, ou seja, os que permanecem no estado clerical, ou os que, pelo menos não estão suspensos das suas funções por algum delito grave que vieram a cometer, somente estes administram licitamente os Sacramentos.

 Quando alguém que se ordenou padre, não importa há quantos anos, decide casar-se religiosamente, e está convicto de que esteve errado quando pediu a sua ordenação sacerdotal, pode atualmente pedir ao Papa sua demissão do estado clerical. Pedido aceito, é ele reduzido ao estado de leigo e dispensado dos votos feitos, inclusive do celibato. Para frente, ele não poderá mais agir como padre, mas pode, na Igreja, fazer tudo o que o leigo pode.

 E se se casa apenas no civil e não pede a redução ao estado leigo? Como fica? Continua no clero, mas é suspenso de ordens por ter quebrado os votos feitos.  Se em tais situações, ou seja, reduzido ao estado de “leigo”, ou mesmo apenas suspenso, se o padre administrar o Batismo, ou a Eucaristia ou a Unção dos Enfermos, os sacramentos valem, sim, embora sejam ilícitos. Os outros quatro sacramentos: Crisma, Confissão, Ordem e Matrimônio, quando administrados por ele, nem válidos são, pois, estes Sacramentos para serem válidos, mesmo com o padre em plena comunhão com a Igreja, é preciso que ele, como celebrante, tenha jurisdição, tenha, como dizemos, o uso de ordem. Acrescente-se, no entanto, que os fiéis da Igreja, sabendo da situação irregular daquele “padre”, não apenas são aconselhados, mas, por lei, estão obrigados, sob pena de interdito, uma das penalidades do complicado direito penal da Igreja, a não participar de quaisquer atos litúrgicos ou sacramentos oficiados por um sacerdote em qualquer uma das duas situações acima referidas. Exceção: em perigo de morte por parte do fiel. Aí tudo o que poderia ser válido, torna-se também lícito ao padre casado fazer. 

* Coordenador da Comissão Diocesana da Doutrina e da Fé e Pároco de Cruz 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: