VOCÊ SABE O QUE É A. D. I? … SABE NÃO!… DUVIDO QUE SAIBA…

A.D.I. – Abordagem Direta do Inconsciente, diria o meu leitor entendido em Psicologia. Mas, aqui, refiro-me a uma outra A.D.I…Depois de grande expectativa veio, agora, a público mais um escrito do Papa Francisco: “a alegria do amor”. A Exortação Apostólica pós-sinodal sobre a Família aborda aspectos felizes da vida de família e tocas também os problemas e dificuldades d. Toca no final no problema das novas uniões sem casamento. Os tais dos “casos difíceis”. Problemas que precisam ser vistos sob o olhar da misericórdia debaixo de uma tríplice consideração que, para não esquecer, logo que o vi, classifiquei como A.D.I. (Acompanhar…Discernir… Integrar)

Em continuidade, o Papa fere o polêmico questionamento: tais pessoas, muitas delas católicos de freqüência regular à Missa, podem, ou não podem, comungar, receber a Eucaristia? O Papa não diz, expressamente, nem sim, nem não! Mas, agora, sobre o assunto nos aconselha o A.D.I., só faltando dizer: “conforme lhes indicar sua própria consciência… podem”!… O mesmo Papa já tinha dito, em mais de uma de suas falas: “Os católicos de segunda união não estão excomungados…”. Agora, é só fazer a lógica falar. Em nenhum momento se poderá dizer que foi esquecida a grandeza e o valor do ser eucarístico. Pelo contrário! Não é sem utilidade ler o novo documento do Papa; “amoris laetitia” (a alegria do amor).

“OS CASAIS DE SEGUNDA UNIÃO NÃO ESTÃO EXCOMUNGADOS!”

            Vale à pena esperar… Não é de hoje que os analistas das realidades da vida da Igreja gostam de referir-se sobre a resistência da Igreja em fazer mudanças no seu comportamento pastoral. Há mesmo uma jocosa constatação de jornalistas quando dizem que ela “caminha com botas de chumbo”. Por isso custa a dar o passo. Assim mesmo. Em razão da lentidão, por exemplo, em responder às necessidades do seu tempo, mesmo que não fosse traindo sua fidelidade ao Evangelho de seu fundador e Mestre, “caminho, verdade e vida”. O peso de sua doutrina, consolidada ao longo de dois milênios e a responsabilidade em guardar o “depósito da fé”, tem-na tornado, quase por definição, uma instituição conservadora.

Quem está antenado com a vida pastoral, em nossas paróquias e comunidades menores, sabe do mal-estar que nasce do procedimento pastoral com relação ao fiel que mantém uma união conjugal sem casamento. Também com relação àquele que teve o casamento religioso desfeito e passou a viver numa nova situação conjugal, com um segundo relacionamento de forma consensual ou com vínculo apenas do casamento civil.

Não há como negar que, aqui no Brasil, como em outros países, em muito mudou a vida familiar. Rareia, cada vez mais, a família constituída segundo a orientação da Igreja: união indissolúvel e com as bênçãos de Deus na celebração religiosa do matrimônio cristão. A constatação é de uma situação onde as pessoas se casam cada vez menos e a maioria termina se separando. Há uma perturbadora mudança no perfil de opões para a família: união consensual dos esposos, união só no civil, repetidas uniões sem vínculos e maiores responsabilidades, inclusive sobre filhos havidos. Em qualquer cidade ou vila é comum ouvir-se falar: “a forma de união que mais cresce aqui é a consensual, em que os parceiros não se casam no religioso”.

Pastoralmente, causa preocupação o caso especial dos desquitados ou divorciados que vivem com suas novas famílias dentro de lares “reconstruídos”, mas que se afastaram da vida de sua comunidade de igreja, precisamente pela falta de acolhimento pastoral em face de sua nova situação conjugal. E, sabe-se, não é pouca gente. E o número não pára de crescer, apontam estatísticas mais recentes. No linguajar da Igreja têm hoje até um nome que os identifica: “Casais de segunda união”.

Na atualidade, aqueles casais até constituem objeto de uma pastoral específica, dentro da Pastoral Familiar que os acolhe no Setor dos Casos Especiais, assim designados: Matrimônio de experiência; Uniões livres de fato; Católico com casamento misto; Mães solteiras; Famílias de presidiários; Famílias vítimas de violência doméstica e externa ao lar; Casais separados ou divorciados sem segunda união; Casais separados ou divorciados com segunda união; Famílias de migrantes; Famílias de dependentes químicos; Cuidados paliativos (pacientes terminais e crônicos em casa); Famílias de portadores de necessidades especiais.

 

                                   UM TRATAMENTO PASTORAL NOVO

O documento do Papa vem reafirmar que, para os casais de segunda união já há um tratamento pastoral novo. Como se fora uma volta deles ao seio da Igreja. Este novo tratamento é querido pela Igreja, há muito tempo. Fundada por Cristo para conduzir todos à salvação, ela não poderia abandonar aqueles que, embora unidos pelo vínculo indissolúvel do sacramento do Matrimônio, contraíram uma nova união. Falando deles, já João Paulo II, no início dos anos 80, afirmava: “esse problema deve ser enfrentado com urgência inadiável”. A decisão fundamental para a volta dos “descasados” foi uma exortação apostólica ainda do tempo de Papado de atual São João Paulo II, em novembro de 1981: a Familiaris Consortio. Nela, o Papa pedia uma Igreja mais misericordiosa com os “divorciados que contraem nova união”. No capítulo IV, número 84, fala-nos da “pastoral familiar nos casos difíceis”; entre eles, os “separados e divorciados em segunda união”.

 Na tentativa de elencar os dados da realidade a atender, o texto papal se dirigia especialmente: àqueles que sinceramente se esforçaram para salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados; àqueles que, por grave culpa, destruíram um matrimônio canonicamente válido; àqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos; aos que estão subjetivamente certos de que seu matrimônio anterior nunca foi válido… Daquele documento pontifício surgiram orientações da Santa Sé para os casais em segunda união: Não podem comungar, confessar-se, ou casar novamente no religioso. Mas, a Igreja deve acolhê-los e oferecer-lhes “meios de salvação” – comunhão espiritual e participação na paróquia; devem freqüentar a missa regularmente, rezar e praticar caridade; podem batizar os filhos e serem padrinhos de batismo e de crisma; podem pleitear uma declaração de nulidade do primeiro casamento, o que “regularizaria” a situação com a Igreja. Agora, vem a orientação do Papa Francisco: “não estão excomungados!”. Antes, já não estavam mesmo; mais ainda agora, lida a orientação papal no seu contexto e “nas entrelinhas”. Mais ainda agora com o A.D.I. Talvez nem seja exagero pensar que aqueles casais poderiam também comungar a Eucaristia, se por outra razão não estivessem eles impedidos de fazê-lo.

A IGREJA NÃO SABE BEM COMO ACOLHER CASAIS DE SEGUNDA UNIÃO

Falando sobre o cuidado da Igreja com estes casais, os bispos de São Paulo, reunidos em Assembléia, convocam seus fiéis a aceitar os recasados. E esclarecem: “Nós, Bispos, somos chamados a acompanhar de perto essas pessoas A Pastoral com os casais de segunda união se destina aos casos irreversíveis. Ela deve existir para reaproximar fiéis dispersos, reanimar a fé esmorecida de homens e mulheres estigmatizados como pecadores. Devemos, enquanto possível, integrá-las nos trabalhos pastorais da Comunidade, que não conflitem com sua vida de casais de segunda união”.

 Tão urgente e necessária pastoral, no entanto, ainda tropeça na resistência de muitos sacerdotes e fiéis. Muitos comentam que a Igreja decidiu acolher esses casais, mas ainda não sabe muito como acolhê-los. Tanto é que em muitos lugares as orientações da Santa Sé, reforçadas pela CNBB, aqui no Brasil, são pouco conhecidas e podem até cair no vazio.

Posta em prática, a Pastoral dos Casais de Segunda União, como comentou um jornalista, estaremos aceitando acomodar nos bancos das igrejas, ao lado da família ideal, a família possível. Isto vai permitir que nunca mais se possa ouvir o depoimento triste publicado, recentemente, numa revista brasileira de circulação nacional. O desabafo era de irmãos nossos, parceiros num casamento de segunda união. Eles se chamavam Olga e Luis Henrique. Assim disseram: “A gente fica marcado, estigmatizado e rejeitado”, diz Olga Maria. “Desde a década de 70, eu e Luis Henrique fazíamos parte da “paróquia dos excluídos”, como muitos se referiam ao destino dos católicos por batismo proibidos de exercer sua fé porque, para nossa igreja, éramos só pecadores. O pecado? Falhamos no sacramento do matrimônio, indissolúvel para a Igreja Católica. Fecharam a porta pra mim que deixei de freqüentar a igreja. Nossos filhos seguiram o mesmo caminho. As portas ficaram fechadas por mais de 20 anos”.

 

            QUEM QUER SÓ FAZER FESTA NÃO DEVE SE CASAR NA IGREJA 

Sobre o assunto, é bom lembrar o que poucos sabem: a Igreja tem um Tribunal para analisar os casos de casamentos que não deram certo. E a Igreja pode declarar nulos aqueles casamentos, liberando os parceiros para uma nova união. O recurso é antigo, e as chances de um pedido desses ser aceito vêm aumentando. Os cristãos podem invocar um, ou vários, de 19 motivos listados pela Santa Sé e que podem tornar inválido o sacramento. Entre eles: imposição paterna, alcoolismo, homossexualismo, falta de filhos e até excesso de ciúme. Ancorados no vastíssimo conceito de “vícios de consentimento matrimonial”, os tribunais eclesiásticos têm tornado nulos um número cada vez maior de casamentos feitos no Brasil, informam as estatísticas.

          * Coordenador da Comissão Diocesana da Doutrina e da Fé e Pároco de Cruz

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