Aniversário de 90 anos de Dom Benedito, bispo emérito de Itapipoca, é celebrado com santa missa solene

Homilia foi proferida por Dom Aldo di Cillo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba

O bispo emérito da Diocese de Itapipoca, Dom Benedito Francisco de Albuquerque, celebrou 90 anos de vida na sexta-feira, 24. O aniversário foi celebrado em santa missa às 18h na catedral de Nossa Senhora das Mercês, em Itapipoca. Participam da celebração o bispo diocesano de Sobral, Dom José Luís Gomes de Vasconcelos, os padres da diocese de Itapipoca, o bispo diocesano Dom Frei Antônio Roberto Cavuto, congregações religiosas, diáconos, seminaristas, e ainda Dom Angelo Piguinoli (bispo de Quixadá), Dom Francisco Edmilson Neves Ferreira (bispo de Tianguá), dom Frei José Haring (bispo emérito de Limoeiro), Dom Aldo Di Cillo Pagotto (bispo emérito de João Pessoa), familiares de Dom Benedito, agentes de pastorais e movimentos, prefeitos e outras autoridades da região.
A homilia foi proferida por Dom Aldo Di Cillo Pagotto. Confira na íntegra:

Homilia de Dom Aldo
Dom Benedito Francisco de Albuquerque, nasceu em Coreaú, aos 24. 08. 1928, – filho de José Francisco de Albuquerque Sobrinho (José da Barra) e Maria Natividade de Albuquerque (Cocota), manteve sempre vivo o vínculo de afeto familiar com seu irmão gêmeo, Gerardo e com suas irmãs, Francisca, Angélica e Magnólia.
Fez seus estudos de 1º grau em Coreaú. Ingressou aos doze anos no Seminário São José de Sobral, e no tradicional Seminário Maior da Prainha, em Fortaleza. Ordenou-se Presbítero, por Dom Jose Tupinambá da Frota, aos 08 dias de dezembro de 1953. Foi vigário em sua terra natal por 09 anos e em Granja por mais 05. Lá exerceu a formação como professor no Colégio Estadual e, em Sobral, dirigiu a dimensão Catequética.
A vida e a missão evangelizadora e pastoral de Dom Benedito se consubstancia na Educação, priorizando o desenvolvimento integral humano de adolescentes e jovens, concretizado na qualificação do aprendizado e habilidades, nas perspectivas profissionais.
Em Coreaú, sua cidade natal, fundou a Escola Educandário Nossa Senhora da Piedade. Para isso, sua família cedeu o espaço da própria residência, transferindo-se para a Casa Paroquial, enquanto a futura escola ganhava sua sede, erigida em Ginásio, em 1957.
Padre Benedito, credenciado com o Magistério no 1° Grau, apoiado pelo Coletor Federal, José Ribeiro de Freitas, aprimorou a qualificação do quadro de professores do novo colégio, envolvendo dezenas de lideranças cristãs, inclusive suas irmãs.
Apoiado pelo Círculo Operário, conseguiu manter e fazer prosperar a instituição e o ensino público, enfrentado período de seca severa, contando com bons professores de caráter humanitário cristão. Coreaú se tornou referência para milhares de adolescentes e jovens, procedentes de distritos do município e de cidades próximas. Famílias alugavam ou compravam casas em Coreaú para manter seus filhos estudando no excelente Ginásio.
Pioneiro no ensino de qualidade, Padre Benedito conciliou os investimentos básicos do colégio, graças às classes mistas e à presença das Irmãs Josefinas, propulsoras de atividades culturais, elevando a prática pedagógica e formativa ao seu pleno vigor.
De 1970 a 1980 foi coadjutor na Paróquia da Paz, e vigário da Paróquia de São Vicente 1980 a 1985. Revalidou sua Filosofia e Mestrado em Sociologia na Universidade Gregoriana de Roma.
Devido à suas habilidades, foi professor na UECE (Universidade Estadual do Ceará), Diretor do Centro de Estudos Sociais e ainda, Diretor do Colégio Capistrano de Abreu, de 1971 a 1980.
Sua presença atuante na Arquidiocese de Fortaleza o elevou à função de Secretário da Comissão Regional do Clero, de 1982 a 1985, quando foi nomeado Bispo da Diocese de Itapipoca. Presidiu o Regional NE I da CNBB de1995 a 2000. Presidiu o Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável em Itapipoca, de 1995 a 2002, bem como foi membro atuante do Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural, em Itapipoca, do Conselho Permanente da CNBB e da Comissão da Seca.

Fecundo ministério
A presença marcante de Dom Benedito na dileta Diocese de Itapipoca, desde o início de seu fecundo ministério, o notabilizou pela sua capacidade intelectual e por sua diplomacia pastoral, enfrentando desafios e conflitos existenciais, tanto na esfera da pobreza material, quanto na miséria moral.
O empobrecimento do povo, devido ao êxodo rural, à exploração imobiliária, à ausência de infraestrutura de desenvolvimento. Tornava-se impossível a manutenção da família nas zonas rurais. Somou-se ao grave fator social, o esvaziamento de valores éticos e morais, como hoje também nos ressentimos, comprometendo o bom relacionamento entre as pessoas, as famílias, prejudicando enormemente a construção da cidade e cidadania.
Na extensão territorial de 11.166 Km² e uma população de aproximadamente 500 mil habitantes, encontramos o empobrecimento material, a ausência de garantias de trabalho e renda, a tensão de conflitos de terra, a violência crescente na cidade no campo. Encontramos ainda, de forma generalizada, a desconstrução da família, a corrupção e inconsequentes desajustes sociais, e outras formas de violência, devido ao narcotráfico, a disseminação dos vícios e a falta de trabalho digno.
Desafios incontroláveis como esses se impõem à missão evangelizadora e pastoral da Igreja de Itapipoca, bem como de quaisquer espaços e lugares, não obstante a presença cristã em atividades que visam a defesa e a promoção da dignidade da vida humana.
Em sua sabedoria, regada de orações e sacrifícios, Dom Benedito, sempre enfrentou grandes obstáculos em seu cotidiano e nas suas visitas pastorais, fazendo jus ao seu lema: “Evangelizar os Pobres”. Sua fé e seu amor ao Reino de Deus e a sua justiça, se antepõe às dificuldades inexoráveis. De modo exemplar sua fé e a sua terna devoção a Nossa Senhora nos estimula a conservar o entusiasmo realista e planejado, tal que, na medida das oportunidades e das possibilidades, se possa fazer o melhor, proporcionar a qualidade de vida digna às pessoas e às famílias mais sofridas.
De modo efetivo, para superar condicionamentos do atraso, Dom Benedito se dirige às soluções viáveis, insistindo em aplicar os investimentos indispensáveis na área de Educação, vinculados ao ensino profissionalizante. Fundou o Instituto Teológico e Pastoral de Itapipoca, em 1993; a Escola Popular Profissionalizante, em 1995; o Instituto São Vicente de Paulo e o Lar Sagrada Família, em 1995, a Casa de Nazaré, em 2000, a aquisição da Rádio Uirapuru, em1994, dando ainda, uma valiosa contribuição a várias instituições que trabalham na área educacional. Seus escritos confirmam o seu esforço ingente para reverter os quadros intoleráveis do atraso: “A Educação de Base à Luz da “Populorum Progressio”, e “O Sagrado e o Profano, sua Situação na Pastoral”.

Missão da Igreja
A missão da Igreja é favorecer e colaborar de modo efetivo, na busca de melhores oportunidades, evitando as formas de subserviência humilhante à qual o nosso povo não pode se sujeitar, construindo a cidadania, como bons cristãos e honestos cidadãos.
As obras que visam a promoção humana e social se integram com as iniciativas evangelizadoras. Por essa razão Dom Benedito chamou Irmãs de Congregações religiosas com as Filhas de Santa Maria da Providência, em Itapipoca, Amontada, Paraipaba, as Irmãs Franciscanas Bernardinas, em Apuiarés, as Irmãs Mercedárias, em São Luís do Curú e Juritianha, as Irmãs Franciscanas do Amparo, em Tururu e Arapari
A fecundidade espiritual levou Dom Benedito a fundar o Seminário Diocesano João Paulo II, em 1988, e permitir no mesmo ano, a abertura do Seminário dos Religiosos de Dom Orione. Dom Benedito ordenou mais de 30 presbíteros!
Criou Áreas Pastorais em oito Regiões, e criou cinco novas Paróquias. Apoiou construção de Igrejas e Capelas em toda Diocese. Chamou a Comunidade Católica Shalom para ajudar na evangelização da Diocese, em 2000. Fundou a Casa Recuperação dos Dependentes Químicos “Volta Israel” em Poço Verde. Fundou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em 2000. Instalou a torre transmissora da Rede Vida em 1999, conseguiu concessão, instalação da Rádio FM Educativa, inaugurada em 2003. Ampliou a residência episcopal em 1999 e a Casa de Retiro no Mundaú em 2001.
Criou e desenvolveu da melhor forma as Pastorais Comunicação, da Educação, da Sobriedade e expandiu sobremodo a Pastoral Familiar. Aprimorou as Normas Administrativas, Econômicas e Pastorais da Diocese. Implantou e realizou inúmeros Seminários sobre a Convivência com o Semiárido e sobre superação de violência e dependência química.
Participou solicitamente na dissolução de conflitos de terra, fazendo-se mediador e reconciliador de justiça e de paz, em dezenas de fazendas e de assentamentos, com êxito exemplar, superando ódios ou a luta de classes.
Em ação de graças pelos 90 anos de dom Benedito, celebramos o memorial da Redenção em Cristo, característica de sua Igreja, na Comunhão da Caridade, na unidade do amor efetivo, aberto aos apelos do Espírito, solícitos em manter a fidelidade à missão evangelizadora que o Senhor nos confia. Destarte, recordamos algumas gestas de nosso jubilando, gratos ao Senhor pela pródiga fecundidade no seu árduo e sublime pastoreio, como presbítero e como bispo.

Zelo pastoral
O zelo evangelizador e pastoral de Dom Benedito nos estimula à atitude corajosa diante dos mesmos desafios da realidade que hoje nos insulta, nos confronta, e nos questiona, clamando por soluções, não tão simples.
Chama-nos à atenção, mas sobretudo ao exemplo a ser seguido, a consciência e o compromisso de Dom Benedito para com os empobrecidos. Sua perspicácia em tomar decisões acertadas, em investir recursos humanos, técnicos e financeiros em iniciativas exitosas, enfim, superando a pior das escravidões, como a proposital alienação e a ignorância, que marginalizam milhares de filhos e filhas de Deus.
Dom Benedito herdou a têmpera do profetismo que não limita a uma ou outra denúncia, mas se propõe ao sacrifício de abrir caminhos para solucionar desafios gigantes. Sua consciência límpida, transparece na boa gestão administrativa e econômica. Colocou os próprios bens, conquistados com sacrifícios, ademais dos recursos de instituições do exterior investindo-os em empreendimentos evangelizadores e ações pastorais.
Chama-nos a atenção, no albor do seu ministério sacerdotal, o enfrentamento da seca, da era de 1958 que provocou a migração de milhares de nordestinos para o Sudeste, enquanto Padre Benedito tirou água de pedra para conseguir manter e expandir um Ginásio de alta expressão. Assim continuou a investir pedagogicamente na formação de jovens, dedicando-lhes precioso tempo, no ensino superior. – Dom Benedito acreditou no pobre, facilitando seu acesso à inclusão com justiça social. Subtrai-se o empobrecido da desqualificação, oferecendo-lhe a educação para o trabalho, nas cidades polos do interior do Estado.
Dom Benedito favoreceu o quadro econômico e social, condição indispensável para fixar a família nas cidades e zona rural, apoiando e conseguindo investimentos para formar lideranças no exercício da agricultura familiar e do sistema da cultura orgânica.
Merece destaque a prodigiosa construção de cisternas de placa e o incentivo à integração das Bacias do Rio São Francisco, esperança para a articulação de 15 milhões de nordestinos, em função do desenvolvimento e revitalização das regiões do semiárido que, lamentavelmente, sofrem um processo de desertificação, pois, além da diminuição das chuvas, mesmo atípicas, enfrentamos estiagens e secas seculares.
A vida e a missão de Dom Benedito foram marcadas pelo dever de enfrentar as crises, na esfera religiosa e outras, bem mais difíceis, na esfera socioeconômica e cultural. Seu legado nos impulsiona a enfrentar a crise moral, pela Palavra de Deus, pela pregação e pelo testemunho das iniciativas.
A missão da Igreja nos leva a contribuir na superação do empobrecimento de milhares de jovens, trabalhando em redes solidárias de políticas públicas, e, repitamos, qualificando-os para um trabalho profissional digno.

Educação
A educação que se tornou mediocrizada, não apresenta perspectivas de futuro. Isso leva adolescentes e jovens a serem cooptados pelas facções para o submundo do crime que, por sua vez, disseminaram as drogas e a violência pelas cidades e interiores.
Considere-se que, por falta de crédito e assistência técnica, a cultura agrícola tradicional se extingue. Entanto, a educação no campo, otimizando o semiárido por políticas adequadas, torna-se um celeiro abundante. O Nordeste possui 28% da população nacional, mas, participa com apenas 15% da produção econômica…
Há pouco consideradas estáveis, instituições sofrem descrédito generalizado. Na esfera religiosa, notam-se fenômenos opostos, de silencioso afastamento das instituições e de práticas devocionais de cunho emotivo, insuficientes para assumir compromissos.
Nota-se tanto a indiferença em relação aos valores do Evangelho, quanto expressões religiosas estranhas à fé cristã. Muitos batizados parecem soltos, nem são acompanhados na fé. Cabe-nos dispor a orientá-los nas dimensões da formação humanitária e cristã.

Linha evangelizadora
Dom Benedito, conjuntamente com os valiosos Bispos do Ceará, fiel seguidor da linha evangelizadora e pastoral, preconizada pelo nosso inestimável Cardeal Dom Aloisio Lorscheider, inspira-nos à continuidade dinâmica do legado da Palavra, da Eucaristia e da Caridade.
A formação integral de discípulos missionários, forma a família sadia e cria o espírito de pertença à comunidade eclesial, à santificação do trabalho e à construção da sociedade, em base aos valores cristãos.
Na fidelidade às moções do Espírito Santo, Dom Benedito inspirou-se para viver o seu lema episcopal, “Evangelizar os Pobres”. Dispôs-se ao compromisso junto aos mais necessitados, levando-lhes a prática da instrução e da inserção, assistindo tanto às zonas rurais agricultáveis, quanto às zonas periféricas onde se encontram sofrimentos a serem superados, com justiça social.
Consideremos que, não obstante os avanços da medicina e do SUS, a assistência à saúde é precária e sua segurança contingenciada. Voltam as doenças endêmicas e cresce o índice de envelhecimento da população.

Benfeitor dos pobres
Nesta Celebração Eucarística de ação de graças ao Senhor da vida, pelos 90 anos concedidos ao nosso Irmão e benfeitor dos pobres, Dom Benedito, no sinal da comunhão na caridade e na solicitude por todas as Igrejas, recordamos os vivos sentimentos de Dom Aloisio Lorscheider, que dizia: “o Ceará é como que uma só e grande Diocese, pela união existente na obra evangelizadora e pastoral, orgânica e de conjunto”.
Cabe-nos pedir a Deus que tenhamos a graça e a coragem de nuclear e formar novas lideranças, entre as quais se encontrem forças jovens na vida, serviços e ministérios leigos na Igreja.
Com espírito sobrenatural e ardor missionário, enfrentemos e superemos a tentação do arrefecimento de ânimo, ante contra testemunhos e contradições presentes nas pessoas e famílias, numa sociedade nas quais a corrupção e os escândalos escarnecem da fé e do compromisso cristão.
Dom Benedito enfrentou com espírito de fé e de amor sobrenatural, como padre e como bispo, muitas realidades adversas, semeando em terrenos difíceis, porém, viáveis, cultivando esperanças que não iludem, colhendo frutos ao tempo de Deus, nunca se precipitando no imediatismo de resultados. Consideremos o fato consumado que todos enfrentamos, hoje: a fragmentação, a perda ou a ausência de valores referenciais que antes davam credibilidade às pessoas, às famílias e às instituições.
Os documentos referenciais do Concílio Vaticano II nos colocaram ante alegrias e esperanças, tristezas e angústias a serem enfrentadas à luz da cruz e da ressurreição de Cristo, único Senhor e Salvador que revela à humanidade o verdadeiro valor da vida que não se esgota num tipo de projeto ou de busca de felicidade terrena, mas abre perspectivas para a vida plena, transcendente, perene, vivida na perfeita comunhão da Trindade Santa.
Os valores, antes perenes e hoje relativizados, se replicaram em crises, desalentos, tentações de desistência, na esfera mundial ou local. Contemplando a vida e a missão de Dom Benedito, certamente optamos por aquele em quem acreditou e colocou toda a sua esperança: Jesus Cristo, seu Reino, sua Igreja. Dom Benedito escolheu ser uma presença evangelizadora, com destemor e alegria de servir, priorizando a formação integral, humana e cristã, a curto, médio e longo prazo.
Pedimos a Deus Nosso Senhor, pela intercessão da Imaculada Virgem e Mãe Maria Santíssima, esse espírito arrojado e simples, discreto e firme, circunspecto e sábio, como características de Dom Benedito, tal que façamos parte das buscas de respostas aos clamores da evangelização e promoção da dignidade da vida, baseando-nos na fé e na esperança de dias melhores, porquanto quaisquer estratégias puramente humanas demonstram-se insuficientes e limitadas, sujeitas aos interesses discutíveis e episódicos.
Ao celebramos os 90 anos de existência do nosso benemérito Dom Benedito, agradeçamos reiteradas vezes ao Senhor da Vida, dirigindo-nos ao Coração Imaculado da Virgem Senhora das Mercês, Mãe solícita e Modelo da Igreja fiel, ao lado de São José padroeiro do nosso Estado do Ceará, que, como nosso veterano anfitrião, sejamos dóceis às inspirações do Espírito, – alegres na esperança, – perseverantes nas tribulações, – assíduos nas orações, – ardorosos na prática da caridade e da justiça, – assistidos pelo mesmo e único Espírito, doador da vida e dos dons, para que em tudo possamos amar para melhor servir.

In Iesu et Maria,
+ Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo emérito da Paraíba
Itapipoca, 24 de Agosto de 2018

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