CARTA A NORMA SOARES

Querida Dona Norma, ainda é difícil escrever para a Senhora. Recordando Pilar, ao despedir-se de Saramago, a Senhora levou consigo tantas palavras naquele dia 6 de julho de 2014. Parece até mesmo que as levou todas, pois minha expressão deixou de ser pelo verbo, mas, pelas lágrimas que ainda banham a face, vez por outra.

Como dizem, só poeta entende poeta. Uso este espaço porque sei que onde a Senhora está não tem endereço postal. Também não a cumprimentei com bom dia, boa tarde ou boa noite porque sei que aí é atemporal. Qual seria mesmo a estação que se vive no Céu? “Os olhos jamais contemplaram. Ninguém sabe explicar”. Penso que no dia de sua chegada, festa da menina Maria Goretti, havia celebração solene, cânticos, tudo muito organizado, do jeito que a Senhora sempre gostou!

Ainda sobre o endereço, lembro-me de Drummond ao escrever para Cora (será que a Senhora já os viu? E Antonio, Rachel, Gerardo? Conheceu o Mons. Antonino? Dom Coutinho e Mons. André aí estão também), “… lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos”. Por aqui muita coisa mudou. Sabe o restaurante do Dragão, de onde, enquanto esperava o jantar, eu costumava ligar para a Senhora, nas noites de domingo? Fechou. Senti um vazio quando lá cheguei e vi as portas cerradas… Aliás, foi num domingo que a Senhora partiu. Exatamente na hora que nos falávamos. Naquele dia eu não estava no Restaurante do Dragão. Estava na sua casa (que era nova). A Senhora participou de uma celebração feita pelo nosso Padre João. Não reagiu, apenas sentíamos sua angústia. Do jeito que a Senhora viveu, discretamente, poucos lá estávamos. A calopsita voou livre, feliz, indo ao encontro d’Aquele em quem sempre acreditou.

Tenho visto nossa amiga Giovana Saboya. Ela, a Condessa de Mont’Alverne, está coordenando o livro do Cinquentenário da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Eu também participo. Temos feito reuniões no Casarão da Betânia. E dá uma saudade… N’outros tempos poderiam ser na Alameda Maranhão ou na Silva Paulet. Sempre e sempre lembramos o Doutor Teo e a Senhora. Destaquei, em artigo, sua importante colaboração para a Universidade e à frente das edições UVA. Ano que vem será o centenário da comprovação da Teoria da Relatividade. O Ivo Gomes, seu e nosso amigo, está organizando eventos. Sei que se a Senhora estivesse aqui, estaria participando. O “Sobralito” contaria novas histórias sobre Einstein. A propósito, vi uma série muito boa sobre ele e nela aprofundei o conhecimento que tinha sobre o homem de fé que estava no cientista.

Quanto aos nossos amigos, seu amado Teo já está aí; acho que a Senhora estava preocupada com ele e pediu permissão para que ele fosse para junto de si. A Santa Irmã Elisabeth também partiu, deixando-nos seu sorriso e um vácuo no Colégio. Vicente Maia conduz a Academia Brasileira de Hagiologia. Vi poucas vezes a Dona Neusinha. Dá uma saudade por saber que a Senhora, fisicamente, não está junto… Todos temos saudades. A Edlene nem me pediu, mas, vou enviar-lhe um beijo em nome dela e da Nete, também.

Temendo ser enfadonho, principalmente para o leitor, vou terminar esta missiva, na certeza de “… qualquer dia, qualquer hora, a gente se encontra…, para matar a saudade”.

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