Amou-nos até o fim

Celebramos mais uma vez o Mistério Pascal de paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. As celebrações, iniciadas no Domingo de Ramos, têm o seu momento alto no Sagrado Tríduo Pascal, culminando no Domingo de Páscoa da Ressurreição.

Por meio das celebrações e ritos, somos levados ao seu conteúdo e significado: o próprio Jesus Cristo, nosso Salvador, que se entregou por nós sobre a cruz e ressuscitou para nos comunicar o perdão de Deus, salvação e vida eterna. Por isso, é fundamental que participemos das celebrações com fé pessoal e com a fé da Igreja.

Na Páscoa, a Igreja não faz apenas afirmações doutrinais abstratas e bem elaboradas: ela fala do drama que envolve uma pessoa, Jesus Cristo; e dos fatos referentes à sua morte violenta e à superação maravilhosa da morte, mediante o poder de Deus. Desde os apóstolos, a Igreja afirma que em Jesus Cristo, Deus estava presente entre os homens e isso foi manifestado de maneira especial nos acontecimentos e fatos ligados à sua paixão, morte e ressurreição. Por isso, o mistério da Páscoa de Jesus Cristo está no centro do anúncio inicial da Igreja.

A celebração da Igreja não é formal e ritualista mas refere-se a acontecimentos: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e sua aclamação como Filho de Davi e Messias enviado por Deus; as tramas das autoridades para prenderem Jesus e conseguirem a sua condenação à morte; a última ceia e despedida de Jesus, com as últimas e mais sentidas recomendações do Mestre aos discípulos, a serem observadas por eles, como um testamento espiritual, após a morte de Jesus. Finalmente, a prisão, o julgamento iníquo, a condenação injusta à morte, a tortura, a crucificação e morte, a sepultura, o túmulo vazio e o reencontro com os discípulos.

Todos esses momentos referentes aos últimos dias de Jesus não são apenas recordados friamente, mas nos envolvem ainda hoje e demandam também de nós um posicionamento pessoal: estamos do lado de Jesus, como tantos discípulos, apesar de suas fraquezas, e nossas também? Somos indiferentes e cínicos, como Herodes e outros? Ou até aprovamos a sua tortura e injusta condenação, como foi o caso de tantos, no drama da Paixão? Nós manifestamos nossa posição através da prática de nossa vida.

A celebração do drama da Paixão de Cristo nos convida a estarmos com aqueles que se mantiveram do lado de Jesus, apesar de toda pressão em contrário; com todos aqueles que, finalmente, bateram no peito com convicção, reconhecendo: ele era um justo; este homem, verdadeiramente, é o Filho de Deus! Ou ainda, como o bom ladrão: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino!

No Ano extraordinário da Misericórdia, a celebração da Paixão de Cristo nos leva de novo a perguntar: por quê o fez? Deus não podia poupar Jesus de sofrimento e morte tão atrozes? De desprezo tão humilhante? Jesus mesmo não podia se livrar de tudo isso com um milagre? Fez tantos durante a vida: podia fazer mais um, bem espetacular, como queria Herodes… Não podia descer da cruz, de forma vistosa, aterrorizando o soldado que o desafiava e todos os que estavam por perto? Teriam caído de joelhos, pedindo perdão, ou escapando, cheios de remorso! Por que não o fez?

Jesus mesmo disse a Pedro, que tentou defendê-lo com uma espada: guarda a tua espada; eu poderia chamar uma legião de anjos para me defender (cf Lc 23,49-51). Não o fez. Deus, por certo, não mandou seu Filho ao mundo para travar batalha contra os homens… A entrega livre de Jesus aos seus perseguidores, aos sofrimentos atrozes e à morte violenta só pode ser compreendida a partir do mistério da misericórdia infinita de Deus. “Deus tanto amou o mundo, que lhe entregou seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (cf. Jo 3,16). Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva.

O evangelista São João, iniciando a narração do drama da Paixão, nos dá mais uma chave de interpretação: sabendo Jesus tudo o que enfrentaria antes de sua morte, em poucas horas, “tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13,1). E São Paulo compreendeu bem: nisto se manifestou a infinita misericórdia de Deus por nós: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (cf Rm 5,8). Só o amor misericordioso de Deus explica por quê Jesus enfrentou a Paixão. Foi por amor a nós, até às últimas consequências.

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