Igreja, campo das vocações

Também neste ano, o Papa Francisco enviou à Igreja uma bela Mensagem para o Domingo do Bom Pastor, “dia mundial de oração pelas vocações”. De onde nascem as vocações? Qual é o campo fértil onde podem despertar e crescer vocações sacerdotais e religiosas?

O Papa recorda que o Jubileu extraordinário da Misericórdia nos permite perceber melhor as nossas primeiras vocações, que são o chamado à vida e a pertencer à Igreja: nascer é fruto da misericórdia de Deus e, pertencer à Igreja, é uma graça muito grande, que devemos apreciar e valorizar sempre mais.

As vocações ao sacerdócio e as de especial consagração na Igreja nascem do olhar misericordioso de Deus, que se encontra com nosso olhar; a pessoa, cheia de espanto, alegria e humildade, reconhece que é amada por Deus, apesar de suas fraquezas e pecados. Foi a experiência de Maria, na Anunciação; de José, dos apóstolos, de Paulo e de tantos outros, ao longo da história. S. Paulo é um bom exemplo disso: ao ouvir a voz de Jesus no caminho de Damasco – “por que me persegues?” – ele pergunta: “que queres que eu faça?” E muda de atitude e de vida, para seguir o chamado que recebeu.

Depois, ele escreveu numa de suas cartas: embora eu fosse um pecador e perseguisse a Igreja de Deus, “ele me amou e por mim se entregou na cruz”. Paulo reconhece que o chamado a ser apóstolo não foi mérito seu, mas fruto da misericórdia de Deus, manifestada a ele por Jesus Cristo crucificado. E isso lhe deu tanta motivação para sua intensa ação missionária, para levar o Evangelho entre os povos e ajudar tantos outros a experimentarem essa mesma misericórdia de Deus que salva.

O Papa Francisco recorda sua própria vocação, que também nasceu no contexto de uma forte experiência pessoal da misericórdia de Deus. Ainda jovem, depois de uma confissão, ele se deu conta claramente do que significava ser perdoado: é o olhar de misericórdia de Deus por todo aquele que se arrepende e confessa sinceramente. O perdão não é uma “energia genérica”, mas a palavra e o olhar compassivo de Deus Pai, dirigidos pessoalmente ao pecador. Essa experiência está traduzida no lema episcopal adotado por Bergoglio, quando se tornou bispo; e conserva também como Papa: “Miserando atque eligendo” (olhando para ele com misericórdia, também o escolheu).

A vocação, no entanto, não é um simples projeto individual, buscado apenas para a realização pessoal, ou para ter vantagens individuais. Em toda vocação autêntica, existe a dimensão eclesial e comunitária. Antes de tudo, há uma “mediação comunitária”, diz o Papa, e as vocações específicas na Igreja são sempre inseridas na grande missão da própria Igreja. O caminho vocacional é feito com os irmãos e requer sairmos de nós mesmos, para estarmos em comunhão e a serviço do próximo e da Igreja.

Por isso, a própria comunidade da Igreja é o campo fértil das vocações verdadeiras. Dificilmente nascerão vocações fora da participação na vida “normal” da Igreja, como a participação na Missa dominical, o amor à Liturgia, à Palavra de Deus e a prática das virtudes cristãs. Da mesma forma, o ambiente natural para o crescimento das vocações é a própria Igreja. Sem a participação na vida da Igreja e a intensa comunhão com ela, a vocação seria como planta num deserto, sem água e sem fertilidade.

O Papa ainda diz que as vocações crescem e florescem quando são sustentadas pelo ambiente da vida eclesial, onde recebem os auxílios necessários para o seu desenvolvimento e amadurecimento. Por isso, é necessário o apoio das comunidades da Igreja às vocações e ao Seminário, onde são formados e preparados aqueles que sentem o chamado de Deus ao sacerdócio e à vida consagrada religiosa. Todos os fieis da Igreja são convidados a colaborar com a formação dos futuros sacerdotes mediante a oração e as diversas formas de apoio aos vocacionados e ao Seminário.

Certo é que a vocação só desperta, se desenvolve e amadurece na medida em que o vocacionado aprofunda a experiência da misericórdia de Deus em sua vida; essa experiência lhe dá a possibilidade de responder de maneira alegre e generosa ao chamado de Deus e de se consagrar ao bem do próximo e da missão da Igreja: quem obteve misericórdia, ajudará outros a alcançarem misericórdia.

Por CNBB

 Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

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