Jair Bolsonaro precisará equilibrar os interesses de um País dividido, avalia especialista

Especialista explica que no Ceará, com um governador petista, pode haver um conflito de interesses “caso ambos se orientem por ideologias e não pela necessidade do povo”

A eleição que levou Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República deixou o Brasil dividido entre programas de governo opostos. O presidente eleito obteve 57,7 milhões de votos contra 47 milhões de Fernando Haddad (PT) e outros 42,1 milhões entre brancos, nulos e abstenções. Será preciso, portanto, segundo os especialistas, equilibrar a situação e governar para todos.
No Ceará, com um governador petista, pode haver um conflito de interesses “caso ambos se orientem por ideologias e não pela necessidade do povo”, segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do Laboratório de Estudos sobre política, eleições e mídia da Universidade, Valmir Lopes.
Em relação à economia e à política, o cenário ainda não está definido, mas o futuro presidente traz princípios do liberalismo econômico e do enxugamento dos gastos públicos. Confira entrevista exclusiva do professor Valmir Lopes para o Correio da Semana.

Correio da Semana – O novo presidente terá pela frente um País dividido. Embora com a maioria dos votos válidos, chama a atenção a quantidade de brancos e abstenções. Como será possível equilibrar os “muitos Brasis”?
Valmir Lopes – A tarefa será muito difícil por causa da campanha polarizada. Mas a expectativa é que o novo governante entenda que ao término da eleição, sua tarefa é governar para todos os brasileiros e não apenas para os que o escolheram. O presidente Bolsonaro terá que ter sempre isso na consciência e saber que precisará agora agir em defesa dos interesses da grande maioria, negociando os projetos que favoreça as expectativas da ampla maioria. Portanto, somente ao longo da atividade do governante ficará mais claro a realização ou não dessa expectativa. Infelizmente, o clima de campanha eleitoral ainda deve durar por alguns meses e essa tarefa será dificultada por causa dos ânimos ainda acirrados. Enfrentar os problemas reais que atormentam neste momento o povo, dará resposta se será possível conciliar a nação brasileira ou ela permanecerá, por muito mais tempo, dividida.

Correio – O Ceará tem um governador eleito com ampla maioria no Estado e pertencente ao PT. Por ser de um partido de esquerda e ideologicamente contrário ao presidente eleito, poderá ter efeitos negativos para o estado? Quais?
Valmir – A consequência de termos um governador de esquerda e um presidente de direita pode ser um problema caso ambos se orientem por ideologias e não pela necessidade do povo. Mesmo que isso não ocorra, há, obviamente, dificuldades para o governador atual. Muito dos investimentos em obras no Estado depende do interesse do governo federal. Nesse momento, as antigas lideranças que faziam a intermediação entre as duas esferas do governo estão fora, portanto, será preciso estabelecer imediatamente novos interlocutores para que os interesses do povo cearense não sejam prejudicados, por causa da sua escolha eleitoral. Pensando no que ocorreu em anos anteriores com a aliança verticalizada de governos de esquerda aqui e em Brasília e o quanto o Estado foi beneficiado com obras, podemos esperar sim consequências negativas desses investimentos.

Correio – O PSL de Jair Bolsonaro saiu de 1 deputado eleito em 2014 para 52 na eleição deste ano. No entanto, a bancada petista (56 deputados) ainda é a maior. O presidente eleito também encontrará como entrave o apoio de ampla maioria na Câmara e no Senado para aprovação de seus projetos?
Valmir – A oposição deverá contar, inicialmente, com aproximadamente pouco mais de 140 deputados federais. Não será suficiente para se contrapor a formação de uma bancada de apoio ao presidente. A questão é saber se o governo empregará os mesmos mecanismos para construir sua base de apoio parlamentar. Tradicionalmente isso significa dar parcela do poder dentro da máquina do Executivo (compartilhar poder com o Congresso) para ter o apoio congressual. Ainda não se pode dizer a priori qual será o mecanismo empregado, porque na campanha Bolsonaro criticou a forma como fora construída a maioria nos governos anteriores. A questão agora é saber se ele terá condições de criar novos mecanismos para formação de uma base parlamentar ou se deverá necessariamente se apoiar na tradição do compartilhamento do poder entre Executivo e Legislativo.

Correio – Quais as perspectivas para a economia em 2019 com uma mudança de rumos na política que sai de esquerda para centro-direita?
Valmir – Infelizmente não se pode saber ainda como tudo se passará no domínio da economia. Porque o projeto econômico do Bolsonaro não foi em momento algum discutido, ele tem apenas princípios gerais de maior liberalismo (favorecimento de regras do mercado) e restrições a ação do Estado, na esfera econômica. Isso significaria teoricamente preferência por privatizações e contenção do gasto público. De qualquer modo, a política dos governos de direita tende a ser de preferência por ajuste fiscal, diminuição da carga tributária e redução dos gastos com políticas sociais. Assim, a maior diferença ocorrerá mesmo em relação a política social.

Correio – E na política, podemos esperar grandes reformas? Enxugamento da máquina? Quais as expectativas?
Valmir – Se o governo Bolsonaro seguir uma cartilha liberal na economia, deverá privilegiar a redução do gasto público, enxugamento da máquina pública quanto ao gasto com pessoal, redução dos ministérios etc… Mas tudo isso vai depender da escolha que o presidente fará em relação ao tipo de arranjo necessário para construir uma base parlamentar. O número de ministério atualmente existente tem relação com a necessidade de base congressual do chefe do executivo. Se ocorrer mudança no mecanismo de formação dessa base, abrirá oportunidade para redução maior ou menor do número de ministérios.

Correio – O senhor tem mais alguma consideração a fazer acerca das propostas para educação, saúde, segurança?
Valmir – Os desafios do novo governo são enormes, os problemas que temos necessidade de resolver imediatamente são gigantescos. Não construímos, infelizmente, nenhum consenso ao longo das eleições. E isso poderá ser um problema a mais que uma eleição normal poderia ter evitado. Mas tivemos uma eleição inédita na história republicana e as consequências veremos nos próximos anos.

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