SANTA CASA DE ANIVERSÁRIO: 91 ANOS, DIA 25

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Festivas comemorações vão acontecer em razão do 91º aniversário (dia 25, quarta-feira) de fundação da Santa Casa de Misericórdia de Sobral. Notícias daquele hospital são sempre notícias também da Igreja. Ele é, certamente, um símbolo da caridade samaritana da Diocese de Sobral que tem confiado a padres diocesanos, dentre eles, padre José Linhares Pontes, padre José Edmilson Eugênio e ao atual Diretor, padre Francisco Junior Melo, a administração de seu Hospital. Estes podem falar da melhoria de qualidade que tem conseguido realizar naquela instituição de saúde e nos seus anexos: Hospital. do Coração, Abrigo Sagrado Coração de Jesus e Hotel Visconde.

Ao lado das celebrações de louvor pelo muito que a Santa Casa vem realizando no cumprimento de sua missão, dada a sua “importância no contexto histórico da saúde na Zona Norte”, é compreensível que a mesma Santa Casa seja objeto de crítica e da insatisfação de muitos. Na análise da situação de dificuldades por que passam hoje as pessoas carentes – um grande número em nosso meio – vem sempre à tona, na mídia falada e escrita, a penosa angústia da gente pobre, quando está em busca da saúde, também na Santa Casa…

 

DIVINA É A INDIGNAÇÃO ÉTICA DIANTE DA INJUSTIÇA

Não são desconhecidas as queixas dirigidas contra aquela instituição diocesana, fundada ainda nos tempos de Dom José, em 1925. Em relação à Santa Casa, como em outros temas polêmicos, as linguagens variam conforme o sujeito que as constrói no horizonte de seus interesses. E, se faltam as informações verdadeiras, fica difícil expressar a verdade.

 

No que toca à zanga dos que falam, até que os compreendo. Cedo aprendi que raiva e zanga são sentimentos bem humanos. Só humanos. Também aprendi que ética e divina é a reprovação, a indignação diante da injustiça e do não atendimento aos direitos da pessoa humana – imagem de Deus. Este sentimento, de fato, está sempre atingindo aos que passam pelos corredores da ante-sala da alta complexidade na Santa Casa de Sobral. Quem os vê percebe que há um “caos” que clama por uma solução urgente, mais humana e cristã. Anteriormente se dizia que quando viesse o Hospital Regional da Zona Norte tudo estaria resolvido. Já veio, e com critérios mais rígidos de atendimento, mas a solução parecer ainda estar longe!

 

NÃO SÓ DE “CAOS” VIVE A BENEMÉRITA SANTA CASA

A Santa Casa de Sobral é hospital de referência, e de portas abertas,  para cerca de um milhão e seiscentas  mil pessoas desta Região Norte do Ceará; de cada 20 leitos ocupados atualmente, só uma média de 10% são com doentes da cidade de Sobral; há uma demanda reprimida em quase todos os setores de atendimento; anteriormente ao SUS e à municipalização da saúde, a Santa Casa podia contar com cerca de 600 leitos. E os serviços feitos eram pagos. Com o SUS, da maneira como está hoje, só contamos com cerca de 400. Apesar de tudo, tenho o testemunho de dona Aparecida Silva. No hospital da cidade onde sou Pároco, ela era a responsável pelo encaminhamento dos doentes necessitados de cirurgia para os hospitais maiores de Fortaleza, ou de Sobral. Disse-me ela: “Padre, o atendimento à saúde está horrível… É uma pena… Graças a Deus…, graças a Deus que existem a Santa Casa de Sobral e a de Fortaleza. È só quem nos tem socorrido.”.

 

ABRINDO O CORAÇÃO DO HOSPITAL

 

Tenho um testemunho: não sei o que se passa no interior daqueles que não voltam mais para o seio de suas famílias, porque, após terem sido trazidos para a Santa Casa de Sobral, foram para a Casa do Pai. Sei, sim, o sentimento dos que chegam até a Santa Casa, fragilizados pela quase nenhuma condição de saúde ou vitimados pelo acidente que os tinha deixado, praticamente, sem vida à beira da estrada, mas voltaram dali com saúde e renovados. Sei do carinho e da gratidão destes últimos por aquela Casa santa.

 

Sou testemunha – porque já o experimentei em minha vida – do sentimento de afeto e de carinho que lá adquirem aqueles que chegam à Santa Casa, confiados não apenas na proteção de Deus, mas também nas mãos habilidosas de médicos e enfermeiros, médicas e enfermeiras que, com alma, sensibilidade e inteligência trataram de nós e nos fizeram retornar à vida que fugia aceleradamente.

 

DEUS AGE A NOSSO FAVOR ATRAVÉS DELES

A fé me dá o direito e o dever de acreditar que Deus age a nosso favor através dos que nos acolhem em seus hospitais. Não só as pessoas passam a ser referência. Também os lugares, as salas, os leitos que nos acolheram naqueles momentos de angústia, beirando a abandono.

 

Foi lá naquela U.T.I. da Santa Casa de Sobral que senti o carinho deles, e delas, que torciam pela minha recuperação. E pela recuperação dos outros que estavam ali. Ali, eu, que pagava o Plano de Saúde, era tratado bem. Bem, sim, mas igualmente àquele mendigo hospitalizado ao meu lado, àquele mendigo que, dias antes, maltrapilho, havia batido à minha porta, no Abrigo Coração de Jesus, faminto, em busca de uns trocados para matar a fome.

 

E com que competência! Lembro-me bem. Após gravíssimo acidente automobilístico, na estrada Sant’ana-Sobral, fui cuidado pela Santa Casa. 30 dias depois, fui à Fortaleza com indicação de revisão médica em uma clínica dalí.. Após descrever para o médico as lesões que eu havia sofrido, perguntou-me ele, olhando sério para mim:

 

– “E com estes traumatismos todos, você ficou em Sobral, e já está assim!?”

– “Sim. Fui tratado só pelos médicos de lá…”.

– “Medicina de primeiro mundo…”. Exclamou ele, meneando a cabeça, lábio inferior para frente, num gesto de admiração e aplauso.

 

Medicina de primeiro mundo, sim, exercida, na época, no dia-a-dia da Santa Casa pelo Heraldo, Gerardo Cristino, Artur Guimarães, Agostinho Moura, Henrique, Otelino e dezenas de anônimas enfermeiras e auxiliares de enfermagem…Acrescente-se o valioso trato que hoje é oferecido pelas Irmãs Sant’Ana e pelas Aparecidas Portela, Reginas e Marias Amélia, se algo lhes é solicitado.

 

Pensei comigo mesmo. Quem sabe não tinha aquele médico de Fortaleza a mesma opinião da minha preocupada cunhada que, ao vir me visitar em Sobral, insinuou, por mais de uma vez, junto ao doutor Gerardo Cristino, ao lhe perguntar, apontando o dedo na direção da U.T.I.:“Quando é que ele (no caso eu) vai para Fortaleza!?”.

 

Bem consciente das possibilidades da Santa Casa de Sobral, o médico que cuidava de mim, respondeu-lhe, até de maneira jocosa: “Fortaleza?! Quando for tomar banho na praia…”. E fui. Trinta dias depois. Só que, são e salvo, para dois meses de fisioterapia… Era assim a Santa Casa de Sobral. Tomara que assim continue a ser. Hoje e sempre!

  • Coordenador da Comissão Diocesana da Doutrina e da Fé e Pároco de Cruz

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