Theatro São João: um Espetáculo de História e Divulgação Cultural em Sobral

Criado com o objetivo de demonstrar o estado de civilização da cidade na época, tornou-se hoje um palco de encontro para a sociedade sobralense

Dono de histórias extraordinárias e berço do desenvolvimento artístico na cidade, o Theatro São João de Sobral passa atualmente por um momento de efervescência em suas programações. Destinadas a formar plateias variadas, que ocupem o espaço em contribuição com a cultura e a preservação histórica, as ações são pensadas para melhor envolver a comunidade e lhes transmitir a importância de possuírem um dos três equipamentos mais antigos do estado do Ceará.

Os espetáculos de teatro, dança, circo, música e infantis conseguem chegar ao palco do Theatro São João através de um edital de ocupação lançado todo semestre na Plataforma Digital de Mapas Culturais – Sobral Cultura. Depois de passar por uma seletiva, o resultado é divulgado e as cortinas podem ser abertas. Lita Ribeiro, gerente do Theatro, ressalta a importância de inserir os moradores da cidade nas atividades desenvolvidas no espaço, principalmente através da programação do Instituto ECOA (Escola de Cultura, Comunicação, Ofícios e Artes) que também resulta de um edital: Terça no Teatro, Quinta que Dança e Domingo das Crianças.

Surgimento

No ano de 1867, existia em Sobral uma casa que foi adaptada para ser palco de espetáculos; era o memorável Theatro Apolo. Segundo o historiador e gerente de Patrimônio e Museologia da Secretaria da Cultura, Juventude, Esporte e Lazer de Sobral, Edilberto Florêncio, foi a partir dessa ideia que surgiu uma movimentação de amantes do teatro que desejavam construir um espaço totalmente apropriado. Assim surgiu a União Sobralense (formada por nomes renomados como Domingos Olímpio, comerciantes e representantes das grandes famílias da cidade), que visavam investir na cultura local.

A construção do prédio iniciou-se em 1875, em tempo de grande seca na região, fator determinante para o atraso da obra, que ficou pronta apenas cinco anos mais tarde como nos informa Edilberto. Em 26 de setembro de 1880, o Theatro é inaugurado com a apresentação de duas peças realizadas por artistas locais: “A Honra de um taverneiro”, de Correia Vasques e “Meia hora de Cinismo” de José Joaquim da França Júnior; um melodrama e uma comédia respectivamente.

O início do funcionamento do Theatro coincide com a instalação da estrada de ferro em Sobral. Assim, a chegada de companhias de outros lugares passou a fortalecer uma dinâmica necessária entre os artistas locais e os trazidos pelo trem. Lita Ribeiro relembra esse fato em uma fala transmitida pelo ator global e artista circense Marcos Frota ao visitar o Theatro recentemente, quando disse se considerar sobralense, pois seu avô, através do Porto de Camocim, chegou e encantou-se com arte e acolhida da terra; passando nela um bom tempo.

Adaptações

No começo do século XX, o cinema foi tomando proporções enormes na cena cultural mundial. O Theatro São João, pensado apenas como Teatro, não disputou lugar com a nova sensação: agregou filmes em suas programações e transformou-se por algum tempo no Cine Teatro São João. As projeções geralmente atraíam o público que também esperava para assistir alguma peça. Cinema e Teatro tornaram-se parceiros na conquista de mais adeptos a arte e cultura existentes.

Durante muito tempo o Theatro fechou suas portas. Não se sabe ao certo em qual momento da história deixou de ser privado e tornou-se um órgão público. De acordo com documentos analisados, Edilberto Florêncio afirma: “Na década de 70 ele já é público”. Entretanto, Lita Ribeiro acha importante destacar: “Quando qualquer equipamento passa a ser gerido pelo órgão público, depende da sensibilidade de quem está à frente. Somente a gestão é capaz de decidir permanecer contribuindo com a cultura ou não”.

Com estilo europeu neoclássico, o Theatro São João foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), mas antes disso já era tombado pelo Governo do Ceará como um dos mais importantes e culturais prédios do estado. Edilberto relata que não existem muitos registros sobre a arquitetura do Theatro. “Através da escavação arqueológica no ano 2000, por exemplo, é que descobriram transformações sofridas ao longo do tempo e não tínhamos ideia; como a plateia em formato de ferradura”, afirma.

A manutenção do Theatro é cara, segundo Lita. “Aqui no São João somos apenas duas pessoas no administrativo, dois técnicos e três mulheres nos serviços gerais que se desdobram em várias outras funções. É muito trabalho a ser desenvolvido com uma equipe tão pequena. Mas nos esforçamos”, comenta Lita Ribeiro. A procura pela cultura está crescendo em Sobral, “o Theatro já não dá conta da produção artística, a cidade necessita de outros espaços”, conclui ela.

Efervescência Cultural

Nas décadas de 1980 e 1990 existiam muitos grupos de teatro na cidade tendo a Pastoral da Juventude como principal incentivadora de ações. Foi um período de descobrimento e crescimento na procura do Theatro por pessoas de todas as classes sociais. Como lembra Rita Ribeiro: “O teatro era um local de encontro da elite. Geralmente quem fazia o espetáculo era a classe menos favorecida, mas quem ia assistir era a mais favorecida. Isso foi mudando e hoje nós percebemos um verdadeiro encontro de classes. As pessoas são atraídas pelo o que as interessa”.

O Theatro São João só existe pela ação dos sobralenses, principalmente daqueles que gostam de trabalhar com cultura e com arte, afirma Lita Ribeiro. Ela apaixonou-se pelo teatro ainda em 1982. Começou a atuar como atriz e participou de várias peças. Entre elas “O alto Lampião no Além” que reinaugurou a casa em 1988. Também foi dirigida pelo sobralense Chico Expedito em 2004 no espetáculo “Esperando Godot” de Samuel Beckett que comemorava a reforma realizada.

Uma das maiores dificuldades encontradas atualmente na cidade é a disponibilidade descompromissada de atores e atrizes para desenvolver trabalhos. “É triste passar seis meses produzindo um espetáculo e apresentá-lo poucas vezes pelo fato de outros artistas não estarem disponíveis”, comenta Lita sobre a sensação frustrante que já viveu. Entretanto como Edilberto Florêncio nos lembra, vivemos em um país onde a cultura ainda não é muito valorizada. “Não é fácil viver de arte. Então temos que desenvolver outras atividades para se sustentar”, afirma ele que também é ator.

“Uma cidade que não possui teatro é um atraso. O teatro ajuda a se expandir; ajuda os artistas se desenvolverem”, afirma Zuleika Ximenes Viana, secretária da Diocese de Sobral, que no passado atuou na companhia de um grupo cênico da cidade. As atividades do teatro em Sobral eram como rosas que floresciam e depois murchavam. Dona Zuleika, que no palco do Theatro São João encenou a peça “Luzia Homem” de Domingos Olímpio, a última de sua carreira como atriz, ressalta: “Teatro no Brasil a gente faz por amor. Teatro é cultura e infelizmente o povo ainda precisa aprender o seu valor”.

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