Nem ditadura, nem democradura

Ultimamente tem sido notório o aumento vertiginoso do número de brasileiros que defendem, e até exigem, a retomada do poder pelos militares. A insatisfação generalizada é justificável, haja vista o que vem acarretando essa avassaladora onda de corrupção e desmandos, que arrasta maior parte da população para a atual situação de penúria. Por outro lado, causa enorme preocupação essa crença de que os problemas nacionais só serão resolvidos se o Brasil abrir mão do regime democrático.

De certo modo, isso denuncia que parte da população já existente no período ditatorial (1964-1985) não se recorda desse triste momento da nação ou não se inteirava do que realmente estava acontecendo; já a parte ainda não nascida, ou criança ainda, naquela época, não procura se inteirar da realidade dos anos de chumbo. Assim sendo, considero muito recomendável aos brasileiros, indistintamente, fazerem uma releitura sobre a mais recente ditadura e seus desdobramentos, a fim de mais conscientemente defender ou não seu retorno.

Concordo plenamente que o momento exige medidas fortes, dolorosas e decisivas para que o País retome “Ordem e Progresso”, como recomenda sua Bandeira. Agora, é bom lembrar que há muitos caminhos para se reconquistar isso, mas a democracia continua sendo o ideal. Através dela também poderá até ocorrer outros “milagres econômicos”, mas sem desequilíbrios como na ditadura; poderemos ter o poder descentralizado, em mãos de homens sérios e competentes, e a população terá assegurado o direito de se manifestar livremente, com respeito, para fiscalizar e colaborar com os governantes.

Por falar nisso, no Brasil existe até o Dia Nacional da Democracia (25 de outubro), numa homenagem à data da morte de Vladimir Herzog (Vlado Herzog), nascido na Iugoslávia, em 27.06.1937, e morto em São Paulo (SP), em 25.10.1975. Herzog foi um jornalista, professor e dramaturgo eliminado durante uma sessão de torturas na época da ditadura, no prédio então utilizado pelo DOI-CODI (Destacamento de Operações Internas – Comando Operacional de Informações) do II Exército, em São Paulo (SP). Mesmo passados quarenta e três anos desse episódio, os brasileiros continuam sobrevivendo a duras penas com essa “democracia” que, para muitos, é apenas formal e parcial. Em suma: um pequeno grupo continua a decidir a sorte (ou o azar) de milhões.

A meu ver, a perniciosa subutilização da real democracia deve-se ao fato de que grande parte dos brasileiros ainda não tem cultura política suficiente para participar mais, para respeitar e exigir respeito, para discutir e cobrar mais seus direitos e deveres. Infelizmente, milhões não dispõem de capacidade suficiente para discernir o certo do errado quanto às ações atribuídas aos políticos. Por sua vez, muitos deles fazem o que bem querem, não respeitam a coisa pública e preferem zelar pelos interesses particulares aos (interesses) do povo. Vale reconhecer que, aos poucos, isso está mudando.

Por conta disso, e acrescentando-se o oceano de corrupção em que o Brasil emergiu nos últimos dias, muito já se fala na temerosa possibilidade de nova edição de golpe, tomada do governo por militares. Ouvem-se, também, comentários de que com “eles” (militares) nada disso estaria acontecendo. E como vem crescendo o contingente dos que defendem essa perigosa “válvula de escape”! Pra mim, seria um desastroso regresso.

Diante de tudo isso, creio que a situação só mudará quando milhões de brasileiros se libertarem da “DEMOCRADURA”, regime político amplamente pregado pelo grande novelista Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922 – 1999), em “O Bem Amado”.

Em magistral interpretação de Paulo Gracindo (1911-1995), o inesquecível “Odorico Paraguaçu” nos brindava com pérolas como a diferença entre democracia e democradura. Dizia ele: “Democradura é o regime que faz a conjuminância das merecendências da democracia com os talqualmentes da ditadura. Pois se na democracia o povo escolhe a gente, na democradura a gente escolhe o povo que vai escolher a gente”.

Mesmo a contragosto, considero que este é o verdadeiro regime hoje vigente no Brasil. À minha maneira, tenho lutado para que “deixemos de lado os entretantos e partamos para os finalmentes”, a fim de que esse quadro seja invertido. Mas que comecemos logo, hoje, agora, neste momento.

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