Tá sobrando Lampião…

Historiadores, pesquisadores, remanescentes de vítimas, de algozes e os mais variados meios de comunicações certamente destacarão hoje um dos mais empolgantes fatos da história do Brasil, que aconteceu por volta das 5h15 da manhã, do dia 28 de julho de 1938.  Trata-se de um acontecimento que ainda hoje desperta muita curiosidade, suscita questionamentos, discussões e muitas dúvidas. Refiro-me ao massacre na grota da Fazenda Angicos, hoje pertencente ao município de Poço Redondo, em Sergipe. Naquele dia, em menos de vinte minutos, dos trinta e nove do bando foram mortos pelas volantes (Polícia da época) Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), 40 anos, Maria Bonita, 27, e mais nove cangaceiros, que abateram apenas um militar.

Apesar de não ser o criador do cangaço, Lampião tornou-se seu principal ícone e juntamente com seus cabras chegou a espalhar terror em sete estados nordestinos por quase vinte anos. Levava uma vida desgraçada, de tiroteios, fugas, constantes sobressaltos, mesmo assim conquistou a admiração de rapazes e moças daquela época. Algo parecido ocorre hoje.

Alguns jovens o acompanharam para livrarem-se da labuta no campo ou porque desejavam vingar-se de algum abuso de poder praticado por policiais; outros por achar bonitas aquelas aventuras e histórias de valentia e, algumas vezes, por verem Lampião tratar bem e até ajudar os pobres. Algo parecido também ocorre hoje.

Já as mulheres, por sua vez, por admirarem e invejarem os cangaceiros usarem muito ouro, jóias e demonstrarem ter muito dinheiro. Houve também casos violentos de rapto das jovens do seio de suas famílias. Também ocorre hoje algo parecido.

Com a morte de Lampião, muitos outros cangaceiros se entregaram e o cangaço ficou fadado a ser extinto. E o tiro de misericórdia finalmente aconteceu com o fim de Cristino Gomes da Silva Cleto, apelidado de Corisco ou Diabo Louro, um dos homens de confiança de Lampião. Foi morto aos 32 anos pela volante do Cel. José Rufino, em Jeremoabo (BA).

Dessa forma, através do clamor do povo nordestino, que pressionou o governo federal e este (pressionou) os governos estaduais que também buscaram ajuda das autoridades e população dos municípios é que foi possível dar-se um basta nesse fenômeno social rural chamado cangaço, que fez tanta gente sofrer e até perder a vida.

Por outro lado, por incrível que parece pode-se absorver algo de bom daqueles nômades bandoleiros, pois deixaram um vasto legado cultural (música, dança, moda, etc.), além de temas de inspiração para poetas, historiadores e estudiosos.

E não resta dúvida de que o cangaço também acendeu a chama para se conhecer e se questionar mais aprofundadamente a situação de penúria, de opressão a que era e, em alguns locais, continua sendo, submetido o sertanejo pobre sob o jogo de grandes fazendeiros (antigos coronéis).

Diante do que estamos vivendo atualmente em termos de violência sinto-me instigado a deixar algumas perguntinhas para o leitor. Por exemplo, dá para imaginar o que dirão as pessoas que estiverem constituindo a nossa população em 2098? Ou seja: quem estiver em nossos lugares daqui a 80 anos dirá o que de tanto furto, roubo, seqüestro, assassinato, estupro, corrupção e outros tipos de crimes, muitos dos quais sem punição?

Se forem pessoas inteiradas da nossa realidade e também da nossa história com certeza falarão que em 2018 também vivíamos uma espécie de cangaço, um “cangaço atualizado, estilizado”. Como cantou Luiz Gonzaga na música “Lampião falou” (Venâncio e Aparício Nascimento). Cita a letra: “O cangaço continua/De gravata e jaquetão/Sem usar chapéu de couro/Sem bacamarte na mão/E matando muito mais/Tá cheio de Lampião/E matando muito mais/Na cidade e no sertão”. Agora, se forem pessoas desinteressadas pela história, possivelmente também não o serão pela realidade, o que será péssimo para todos, pois nada mudará.

E aí? Você faz parte desse segundo grupo? Se fizer, fique sabendo que assim fica muito difícil clamar eficazmente pelo fim da violência. Portanto, mude o quanto antes seu posicionamento, aja e defenda seu direito de ter segurança. Só assim será possível sensibilizar as forças governamentais, as responsáveis e capazes de apagar os atuais e inúmeros “Lampiões” que ultimamente vêm espalhando terror nas cidades e nos sertões.

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