ASTRO POR ACASO

Em 1975, sob a tutela do Prof. Petrus Van Oo, reativou-se o teatro amador em Sobral, quando encenamos, como peça principal, “Luzia Homem”, com elogiosa atuação de Bobô Sampaio e Diana Holanda. Todavia, o amadorismo teatral sobralense atingira o ápice em 1955, com supervisão geral do Pe. Marconi Montezuma. Sem interesses materiais, apresentávamo-nos com amor e abnegação. Os espetáculos – que superlotavam o Teatro São João – tinham suas rendas destinadas como ajuda à manutenção do Abrigo Sagrado Coração de Jesus.

Egressos do Grupo Cênico do Teatro Glória (1938), onde foi depois o Cine Rangel, hoje demolido, nosso Teatro Escola Sobralense, pertencente à Congregação Mariana, era dirigido por Clotário Aguiar (comediante) e Hugo Vinãs (dramaturgo). Nosso elenco constituía uma família unida, inclusive nas turnês pelas cidades circunvizinhas, cujas encenações ocorriam nos salões paroquiais. Além deste colunista, destacavam-se: Camilo Mendes Sousa (Bibiu), Mauro Andrade, Chiquito Borges, Guido Ponte, Salu Montezuma, Ivanira Azevedo, Carolina de Paula Pessoa, Zuleica Viana, Edmirtes Arruda etc. Alberto Jácome atuava como contra-regra, visivelmente neurastênico e tenso.

No contexto, não era possível prescindir do “pau-pra-toda-obra”, o herói anônimo. Este, por trás da cortina, preparava o palco, cenários, iluminação, camarins e ajudava na coreografia, sem aparecer. Contudo muito estimado pelo grupo. Havia ainda o “ponto”, colaborador que ficava sob cúpula côncava no meio da ribalta, soprando o que os atores deveriam dialogar; hoje não mais existe, o “script” tem que ser decorado. O herói anônimo do Teatro São João, onde morava em um quartinho, era “Seu José”, com irrisória remuneração e diariamente “troviscado”. Cinquentão celibatário e misantropo. Alcunhado de “Zé Boquinha”: boca peba, aloirado, e sempre suado pelas montagens e conservação dos cenários.

Em determinada apresentação, no palco estava, anteriormente montado por Zé Boquinha, um poste com lampião para ser aceso na hora da cena por pessoa que, SEM DIZER NADA, entrasse, acendesse e voltasse. Para a função, por demais secundária, foi escolhido Zé Boquinha que vivia irritado com o apelido. Tornaram-se corriqueiras as confusões nos ensaios, quando se pedia: “Seu Zé Boquinha, traga isso ou aquilo”. Ele estourava e reagia com respostas obscenas. Taciturno por natureza, era o ideal para o desempenho de apenas acender o lampião sem dar uma palavra. Persuadido por Pe. Marconi, aceitou a ínfima missão, embora compurgido por mórbida ansiedade, visto ter horror de enfrentar plateia. O contra-regra controlava o momento de entrar e o ponto a maneira de proceder sem necessidade de Zé Boquinha falar. Tudo combinado. Chegou a hora H. Zé Boquinha, de “cara cheia”, nervosíssimo e indeciso, foi empurrado para o palco por Alberto Jácome. Atônito, desvirtuou a tarefa. De braços abertos e voz trêmula, olhou para o público e repetiu a orientação do ponto: -“acende o lampião e sai, acende o lampião e sai”. Não era pra ter falado. O ponto desorientou-se e gritou: “Zé Boquinha, idiota, vai embora”. Zé Boquinha extrapolou. Arrancou o lampião e jogou no ponto, dizendo: -“porra, Zé Boquinha é a mãe, é a mãe”. O ponto saiu da cúpula, subiu ao palco e engalfinharam-se.

O burburinho tomou conta do ambiente. A plateia, de pé, admitindo que o espontâneo (?) show fazia parte da encenação, batia palmas e mais palmas. Nós atores principais ficamos em segundo plano e Zé Boquinha, inconscientemente, roubou a cena, tornando-se o melhor astro da noitada.

Nos dias seguintes, por onde passava, não suportava as ovações dos fãs: “Zé Boquinha, Zé Boquinha, parabéns. Sem nada entender, reagia com os mesmos impropérios, viciado numas biritas no Beco do Cotovelo e nos tijolinhos de leite do Camerino, deixou de frequentar este, na época, bucólico recanto, por não aceitar a fama (?).

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