À PROCURA DE UM HOMEM

 

Há 2.400 anos, aproximadamente, um sujeito metido a filósofo, chamado Diógenes de Sinope, saiu da sua terra natal e passou a viver em Atenas, onde praticava um sistema de viver totalmente desapegado de bens materiais. O patrimônio dessa figura singular, que fazia questão de viver como mendigo pelas ruas, não passava de um bastão, um alforje e uma tigela. Vestia-se miseravelmente e morava dentro de um barril tal qual o personagem Chaves, da TV mexicana. Costumava sair pelas ruas de Atenas, sob o sol do meio dia, com uma lamparina na mão, à procura de um homem verdadeiro, um cidadão do bem, sobretudo um homem honesto. A história, no entanto, não relata se a busca logrou algum êxito, isto é, se o bravo Diógenes conseguiu encontrar o homem procurado.

Deixando-se a Atenas histórica, com o seu patrimônio cultural composto de monumentos, deuses e templos, e berço da democracia, mas necessitada, segundo o entendimento de Diógenes, de uma varredura da luz de uma reles lamparina, vamos admitir, a título de imaginação, que o antigo filósofo grego, nesses tempos de globalização, ressurgisse do velho barril e resolvesse ampliar a procura além fronteira da Grécia e, por um “golpe de sorte,”aportasse em terras brasilienses. Claro, porque alheio aos avanços da tecnologia, traria às mãos a indefectível lamparina, abastecida com bastante combustível. Da mesma forma, não abdicaria das vestes miseráveis e, devidamente paramentado, sairia pelas ruas da capital dos brasileiros no cumprimento da missão incansável: procurar o Homem.

Com passos lentos, lamparina acesa, Diógenes caminharia pelo Eixo Monumental, bem próximo à torre de TV.Daí, rumaria para o leste onde, ao longe, avistam-se vários prédios de linhas avançadas e formas arrojadas, bem diferentes da arquitetura da Grécia Antiga.

Distante, bem distante de encarnar o arquétipo de escultor e muito menos o de arquiteto, Diógenes, sob o sol do meio dia, mantendo a lamparina acesa, descansaria por um instante, contemplaria o visual das construções e ficaria, bestamente, talvez, a pensar. Ora, se pensava, certamente julgaria lograr êxito na milenar procura pelo homem honesto. Nessas divagações filosóficas, um morador de rua,desde a época dos candangos de JK, se aproximaria do filósofo.Vendo a figura exótica, parada, pensativa,perguntar-lhe-ia:

– O que é que tu tá fazendo aí, feito abestado, com essa luz acesa em pleno meio dia?

– Procuro um Homem!O homem ideal. Quem sabe se naqueles prédios bonitos, p’ras bandas daquele lago, eu não consigaterminar a minha longa procura?…Desabafaria o filósofo.

Eu moro aqui há muito tempo. Mas pelo que eu sei, dali já tem saído “anões do orçamento”, ‘aloprados”, “mensalão”, “petrolão”, impeachment… e outras coisas mais. Acho bom apagar esse negócio, aí e cuidar de outra coisa…Advertiria o morador.

            – Basta! Pelo que tu dizes, não é com essa pobre lamparina que vou encontrar o meu objetivo. Admito que preciso de outra fonte de iluminação mais potente. Adeus!

Dito isto, Diógenes jogaria fora a lamparina, subiria na torre da TV e desapareceria na vastidão do céu límpido do Planalto Central. Com certeza, para recolher-se ao sossego do seu velho barril milenar.

                                                                                                                                                                                         Joab Aragão  

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