Uma casa de irmãs religiosas na Fazenda da Esperança de Sobral

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É a boa notícia da semana: Domingo, dia 6, será aberta uma Casa das Irmãs Reparadoras na Fazenda da Esperança. Elas prestarão ali um trabalho pastoral de grande valor junto aos residentes da Fazenda. È momento de pedirmos a Deus não faltem a elas o louvor e o reconhecimento de quantos sabem a importância social e cristã daquela instituição diocesana. Porque desconfio que muitos ainda não a conhecem e mesmo nem a visitaram ainda, julgo por bem divulgar, mais uma vez, nesta coluna, o que é e como funciona a Fazenda da Esperança São Bento: uma instituição criada para tentar resgatar a esperança de tantos jovens destroçados pelo uso das drogas que os tiraram do convívio normal e saudável entre os outros jovens, crianças e adolescentes de sua comunidade.

 

UMA INICIATIVA DA DIOCESE 

A criação, em Sobral, de uma Fazenda da Esperança foi uma proposta de iniciativa da Diocese que desafiou a capacidade empreendedora do bispo diocesano na época, dom Fernando Saburido. Apoio não lhe foi negado: a Prefeitura Municipal, o Lions Club, os Párocos da cidade, empresários cristãos foram os parceiros da primeira hora. Algumas reuniões de sensibilização e planejamento foram realizadas. A busca por uma área de terra rural, própria para as atividades específicas de uma Fazenda, enfim chegou a bom termo, inclusive com aparecimento de mais de uma opção.

O passo decisivo rumo à fundação da Fazenda da Esperança São Bento foi a vinda a Sobral do padre José Luiz de Menezes. Pe. José Luiz, da Diocese de Estância (Sergipe), na época, era o Coordenador Geral das Fazendas da Esperança na área que ia da região Norte do Ceará até o Estado de Tocantins, incluindo o Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. Veio ele acompanhado do professor Cláudio Monteiro (da Universidade de Pernambuco) e do jovem Antônio Veríssimo (Tóni), os dois, ex-usuários de drogas e, naqueles dias, coordenando em nível local, como voluntários e “padrinhos”, todas as atividades da Fazenda Esperança de Coroatá (Maranhão).

Na reunião com a equipe de visitantes, foram muito emocionantes os depoimentos que eles nos deram. Como disseram, na vida de uma Fazenda, tudo começa com um apelo: “Ajude-me, por favor. Sozinho não consigo sair desta vida”. Numa entrevista especial que eles concederam ao Em dia com a Igreja, recebemos esclarecedoras informações sobre o dia-a-dia de uma Fazenda.

Vale salientar, inclusive, a espontaneidade de nossa conversa, dada a aproximação que foi possível estabelecer com os visitantes: padre José Luiz tinha sido paroquiano do padre Almeida, sobralense que trabalhava na diocese de Estância e que, coincidentemente, estava em visita a seus familiares de Sobral; o jovem Antônio Veríssimo (Tóni), é pernambucano e tinha feito catequese infantil com Dom Fernando; o professor Cláudio Monteiros, espontaneamente, confessou que conhecia muito bem a Região e pessoas de Gijoca, de Preá e de Jericoacoara, nos tempos em que, usuário de drogas, várias vezes, teria viajado, de moto, de Recife para ali. Inquirido porque não se “divertia” em sua terra mesmo, respondeu: “Oh… mas aqui era paradisíaco…”

 

DE GUARATINGUETÁ (SP) PARA O MUNDO

Naqueles dias, a experiente equipe viera a Sobral para conhecer nossa realidade e conversar com a Diocese sobre como dar andamento ao seu projeto. A criação de uma Fazenda começa com a aquisição de uma propriedade rural a ser doada à organização Fazendas da Esperança. Aceita a doação, tem início a instalação e funcionamento, com supervisão de seus coordenadores e gestão com base num voluntariado local. Naquele ano, já eram quarenta e duas fazendas, sendo trinta e duas no Brasil e dez em mais oito paises: Alemanha, Rússia, Filipinas, México, Argentina, Paraguai e Guatemala.

Fazendas da Esperança são comunidades terapêuticas de recuperação de jovens dependentes químicos (álcool e drogas). Nasceram, há 33 anos, em 1983, da iniciativa modesta de um franciscano, Frei Hans Stapel, que era Pároco em Guaratinguetá (São Paulo), sensível aos problemas dos jovens com drogas, em sua comunidade. Acolhendo hoje cerca de dois mil jovens em recuperação nas diversas casas, a entidade já acolheu perto de vinte mil jovens que procuraram nas Fazendas um novo sentido para a vida. Segundo informações prestadas, obtendo sucesso em cerca de 80% deles, o mais elevado percentual dentre outras instituições voltadas para o mesmo objetivo.

Grande divulgação deu às Fazendas a visita de Bento XVI, quando esteve no Brasil, fez à Guaratinguetá. O Papa foi ali a convite do Frei Hans. No ano anterior, o franciscano, conterrâneo de Bento XVI, havia sido chamado ao Vaticano pelo Papa por ocasião do lançamento da Encíclica “Deus Charitas est” (Deus é Amor), para dar testemunho de seu trabalho apostólico de caridade cristã junto aos alcoólicos e viciados em drogas. Seu depoimento cabia muito bem no contexto da segunda parte da encíclica, que se dedica precisamente ao tema da prática do amor pela Igreja. Convidado, na ocasião para uma visita à Fazenda em Gauratingueta, de pronto, disse o Papa: “Vou”. E veio.

 

CONVIVÊNCIA, TRABALHO E ESPIRITUALIDADE

Uma Fazenda da Esperança atende a todos. A única exigência que se faz é que o próprio jovem queira se recuperar. Para isto ele escreve, de seu próprio punho, uma carta de pedido. As Fazendas recebem normalmente homens e mulheres entre 15 e 45 anos. Uma unidade em Coroatá (Maranhão) desenvolve um trabalho diferenciado para atender apenas os menores. Os jovens ficam pelo menos o período de um ano se tratando. A metodologia da recuperação numa Fazenda é centrada num tripé: a convivência fraterna, o trabalho e a espiritualidade.

O dia numa unidade da Fazenda da Esperança inicia às 6h. Às 6h30 começa a meditação, em que se faz a leitura do Evangelho ou de algum texto significativo. Deste momento de oração se tira uma frase de motivação que acompanhará os jovens no decorrer do dia. Isto é tido como a vivência do Evangelho, da Palavra de Deus. Para quem tem outras convicções e crenças, pode-se adaptar aquela frase de uma maneira que ele entenda. Às 8h é o café da manhã.

Em seguida, começa o trabalho. É com base no trabalho, na comunhão dos bens e na ação da Providência divina que a Fazenda se sustenta. “O trabalho é uma das colunas nossas, porque por meio dele é que a Fazenda se sustenta, não pelas doações”, nos advertiram os visitantes. As doações que a entidade recebe são investidas em obras de ampliação, novas casas, reformas, inauguração de outras Fazendas e missões. Esse sistema possibilita à casa atender a todos, e, além disso, o próprio jovem conquista a sua dignidade trabalhando. Também os familiares contribuem. Embora o tratamento seja gratuito, a cada mês, quando visitam seus filhos nas Fazendas, adquirem uma cesta de produtos feitos pelo próprio filho ou filha, no valor de um salário mínimo. A maioria vende lá fora o produto ou doa para amigos e vizinhos. O importante é que participam também do novo estilo de vida do filho.

Junto à dinâmica do trabalho há também a convivência. Os internos residem sempre em pequenas casas, que acolhem entre 10 e 12 pessoas, no máximo 14 pessoas, onde se procura criar um ambiente de família. Há um clima de inter-ajuda muito grande. Nos três primeiros meses não podem receber visitas. Nem mesmo da família.  À noite, há os momentos de lazer, missa, esporte. Duas vezes por semana os recuperandos se encontram para partilhar um testemunho, em que cada um pode dizer como conseguiu viver aquele dia, falar de suas vitórias e derrotas no decorrer da caminhada. Todos vivem em comunidade. Separam-se das atividades ordinárias apenas os que estão sob restrição médica ou os portadores de AIDS/SIDA desabilitados a ter movimentos. Estes recebem o coquetel de remédios e fazem fisioterapia em alas especiais. Os que têm o vírus HIV e estão habilitados a trabalhar recebem seus medicamentos e convivem com os outros internos normalmente no seio da comunidade.

 

DOIS CARISMAS: SÃO FRANCISCO E FOCOLARES

Espiritualidade cristã.Além de não haver discriminação social, racial ou quanto à condição de saúde, não há também exclusão religiosa. As Fazendas são ecumênicas. Muçulmanos e cristãos convivem na Fazenda das Filipinas, por exemplo. Na Rússia, a entidade está no seio ortodoxo. Já na Alemanha, praticamente todos são evangélicos ou ateus. No Brasil, também há jovens de diferentes crenças. Mas como nós nascemos no berço da Igreja Católica e a nossa espiritualidade está vinculada ao carisma franciscano e também ao carisma da unidade, vivenciado junto ao movimento Focolares, claro que nós temos essas raízes, e os jovens têm a possibilidade de participar, até diariamente, da missa, por exemplo. Os sacerdotes amigos celebram as missas e ministram os sacramentos. Para os que querem, há ainda cursos, catequese, preparação ao Batismo, à Primeira Comunhão e à Confirmação. Muitos jovens e sacerdotes, doando-se completamente a Deus no serviço à Fazenda da Esperança e vivendo integralmente sua espiritualidade, sentiram o chamado a constituírem –com aprovação eclesiástica – uma nova família religiosa, a Família da Esperança.”.

 O retorno à sociedade acontece sob o amparo daqueles que um dia já passaram pelo tratamento. Há grupos de ex-recuperandos espalhados por todo o Brasil e pelo mundo. Chamados Esperança Viva, esses jovens acolhem e acompanham os que acabaram de sair da Fazenda. Eles os auxiliam na ressocialização, na aquisição de um trabalho ou retorno aos estudos. Esta ação dura ainda muitos anos. E depende muito do acompanhamento da família.  *Pároco da Paróquia de São Francisco da Cruz.

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