Seca nos açudes

Vivemos mais uma estiagem prolongada, para alegria dos chamados industriais do ramo.  Mais discursos grandiloqüentes, promessas que não serão pagas, grupos de trabalho, visitas de parlamentares e ministros para “ver a seca” (parece que eles não acreditam no fenômeno).  Às vésperas de um ano eleitoral, pode não chover água, mas a chuva de votos de curral estará garantida.  As roças não florescerão, mas a colheita eleitoral será abundante, pelos métodos escusos de sempre.  É razoável perguntar: quantos votos valeria um carro-pipa?  Segundo dados fornecidos pelo Itep, o Semi-árido pernambucano e de parte de Estados vizinhos sofre seca desde o início do ano, e a previsão é de mais seca pelo menos nos próximos três meses.  Em toda a região, já são mais de dez meses sem chuvas significativas.  O dia de São José (19 de março) está chegando, uma esperança de todos nós cearenses.

A história da seca nordestina já foi contada e recontada, em prosa e verso.  São conhecidas propostas de solução para o flagelo desde o século 19, incluindo açudes, migrações para a Amazônia e para o Sudeste, mais recentemente irrigação.  Os nordestinos quase sozinhos povoaram o Acre.  Foram enganados com projetos mirabolantes de agrovilas, de terra abundante e barata no Pará.  Hoje, são vítimas de massacres por parte de grileiros, madeireiros e demais usurpadores de terras públicas.

No Nordeste, não faltam projetos para se viabilizar essa convivência (sem migração forçada com destino e êxito cada vez mais incertos, e sem fome, desnutrição, sofrimento, mortes).  Como a exploração de lençóis freáticos, as águas subterrâneas abundantes no Ceará e outras áreas da nossa região, a dessalinização de águas salobras, uma iniciativa bem mais barata que é a construção de cisternas, meio tradicional de captar água da chuva nas épocas de precipitação, que anda meio esquecido.

O projeto de transposição de águas do São Francisco para rios intermitentes do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco é uma solução grandiosa e cara, mas que pode facilitar muito essa convivência, esse modus vivendi.  Mas não se pode deixar de observar que essa obra pode ser uma reedição dos açudes do velho Dnocs, privatizados.

Comunidades vizinhas de açudes sofrem falta de água, como nos reservatórios de Jaibaras(Ayres de Sousa), Massapê(Acaraú Mirim), Varjota(Araras), Forquilha(Açude Forquilha), Meruoca(Jenipapo), Santana do Acaraú(São Vicente) e Cariré(Taquara), entre muitos outros.  A convivência com a seca não será possível enquanto a questão estiver nas mãos dos políticos de sempre.

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