“ESSA…CNBB… É FOR…TE MESMO…!”

Prosseguem, no Santuário de Aparecida do Norte (SP), os trabalhos da 54ª Assembleia Geral dos Bispos na CNBB, OU SEJA, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A Assembleia, iniciada quarta-feira última, dia 6, tem duração de cerca de dez dias, e tem, como tema motivador: “ Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, luz e sal da terra.”. Estão participando cerca de 320 bispos, inclusive nosso bispo Dom Vasconcelos, além de assessores e convidados especiais. No primeiro dia da reunião, como é de costume, foi apresentada aos participantes, por especialistas (padres e leigos), uma boa e sempre esperada “análise de conjuntura”. Os expositores apresentaram uma visão dos desafios trazidos pela realidade atual, numa metodologia de trabalho comum na Igreja no Brasil: ver, julgar e agir.

Estas análises geralmente são lidas posteriormente, com muito interesse, em todo o Brasil, pelas pessoas que acompanham o trabalho da Igreja. Afinal elas trazem o que os bispos, como pastores, estão ouvindo sobre a realidade em que vivemos. E este ver constitui elemento indispensável para uma mais eficiente prática pastoral e evangelizadora. A evangelização se dá no contexto da cultura (modo de cada grupo humano pensar, falar, produzir, consumir, reproduzir-se, expressar-se artisticamente, relacionar-se com o sagrado, enfim, um modo de vida partilhado de uma geração a outra), Dado que os fatos culturais são dinâmicos, trata-se aqui de decifrar as linhas de força hoje atuantes em nossa cultura. No contexto não faltou a referência às atuais querelas políticas em torno do pedido de impeachment (para alguns, um “golpe” mesmo) da Presidente Dilma, ação que recebeu repulsa de dirigentes da CNBB. Os Bispos vão refletir e tomar decisões sobre assuntos importantes: os 500 anos da  Reforma Luterana; os 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida; o problema da terra dos indígenas e muitos outros.

 ENTENDENDO A  CNBB…  O QUE ELA PODE E O QUE NÃO PODE.

A CNBB, uma das maiores Conferências no mundo católico, reúne um complexo de 18 Regionais, 44 arquidioceses e 231 outras circunscrições eclesiásticas (dioceses, prelazias etc.) Disto decorre a importância de sua ação e da avaliação e planejamento de suas atividades pelos 18 Regionais e pelas Comissões Episcopais Pastorais, em número de doze (12), abrangendo todas as áreas de atividades pastorais da Igreja.

O que faz a CNBB? No assunto, há, no meio do povo, perguntas que não são sem sentido: São os bispos, individualmente, obrigados a seguir as determinações da Conferência?… Não são autônomos os bispos em suas decisões pastorais, mantendo obediência apenas ao Papa? Sim e não, para as duas perguntas! Apesar da diversidade de pensamento pastoral, o que é natural num conjunto tão numeroso de pessoas que formam o episcopado nacional, os Bispos procuram construir uma certa unidade no trabalho. E as Comissões agem com este horizonte. Cada uma delas tem suas atribuições e seu campo de ação específico, mas trabalham de forma integrada e articulada. Na Igreja há duas palavras-chave: comunhão e participação.

A CNBB, pode-se dizer, não faz planejamento para o Brasil todo, ou seja, para cada uma das Dioceses. Isto faz o Bispo com o seu presbitério e os leigos na própria Diocese, chamada Igreja Particular. A CNBB traça Diretrizes.

MUDOU O MUNDO? MUDOU A IGREJA? OU MUDOU A CNBB?

A Igreja Católica é, desde muito tempo, considerada uma das maiores organizações sociais da atualidade. Em muitos países, dentre eles, o Brasil, detém grande capilaridade geográfica, chamando a atenção tanto pelo seu aspecto mais essencial, místico e espiritual, marcado pelo anúncio do Evangelho de Jesus ao mundo, como pela unidade que carrega como uma de suas notas características. E é coisa de chamar a atenção. Tem ela o mais expressivo quantitativo de voluntários a serviço da sua missão, incomparavelmente superior ao de qualquer outra instituição social.

A CNBB é organismo bastante respeitado não só no nosso país, mas também em outros paises e continentes. Todavia, nestas duas últimas décadas, ficou menos visível, no Brasil, o seu peso na vida social e política. Não há como negar. Anteriormente, a sua força junto às instâncias de decisões executivas e legislativas do País era até um mito. Lembro-me daquele representante do Ministério da Educação (MEC), vindo de Brasília para vistoria junto à Faculdade de Filosofia Dom José, de Sobral, dirigida, na época (entre anos 1970 e 1980), pelo saudoso Monsenhor Joviniano Loiola. A Faculdade estava com processo junto ao Ministério, acusada de irregularidades acadêmicas. O atento fiscal do MEC, observando que, no aludido processo, em nada a Faculdade estava sendo apenada, conversando na calçada do prédio central da UVA, na Betânia, saiu-se com isto: “.Essa…CNBB… é for…te mesmo!”. Mito. Nenhum apelo nem interferência alguma houve da Conferência dos Bispos. E o processo foi revertido em benefício e louvor à Faculdade.

Todavia, não há como negar: Hoje, já não há aquela influência que tinha a CNBB do tempo dos Lorscheiders. Para os que acompanham de perto os meandros da vida governamental em nível nacional, parece, têm mais peso, hoje, os evangélicos, tanto no Congresso como nas ante-salas de muitos Ministérios.

Curioso é saber de qual irregularidade estava sendo acusada a Faculdade?  Lembro-me bem: a criação dos Cursos Parcelados. No começo, pensou o Ministério que era coisa parecida com o que faziam as Universidades no Sul do país: aulas dias de domingo.   Sobre o assunto já aqui este comentário elogioso ao seu inventor: “Cônego Sadoc “inventou” os Cursos Parcelados – semente do processo de expansão da Universidade pelos campi, espalhados hoje um todas as regiões do Ceará e em até outros Estados, pelo dinamismo da ação empreendedora dos Reitores que o sucederam na Universidade. Dificilmente, entre nossos municípios, teria acontecido o festejado atendimento à demanda pelo ensino de 2° grau, sem a criação dos Cursos Parcelados, em funcionamento desde 1974. Esta forma de levar professores às licenciaturas, sem abandonar seus postos de trabalho, ousada e lúcida, uma novidade no cenário educacional do país, nasceu do hábito de interpretar, de forma criativa, os frios dispositivos legais. Foi em Sobral, com o Cônego Sadoc, que ela conquistou o parecer favorável do então Conselho Federal de Educação, o qual, nos inícios dos anos 80, acolhendo denúncia de grave irregularidade na Faculdade de Filosofia, verificou, após suspensão dos seus Cursos e demorada investigação, que se tratava – ao contrário – de algo que merecia apoio e incentivo à sua aplicação em todo o País. Uma vitória que tem aberto caminho a um vitorioso processo de qualificação do professorado no Nordeste brasileiro, cujos louros, é de justiça reconhecer, devemos primeiro ao Cônego Sadoc.”.

ENTENDENDO A ASSEMBLEIA

Desde 2001 e de acordo com o novo Estatuto Canônico da CNBB, o conjunto formado pelas Comissões Episcopais (CEP) que se reúnem mensalmente com a Presidência, ganharam os Bispos uma maior influência direta, na condução dos rumos da Conferência. Anteriormente, na prática, o planejamento e os rumos das ações eram confiados mais aos assessores (padres e leigos), embora as decisões fossem tomadas pelos Bispos.

Anos atrás, a atuação da CNBB, atuando nas questões sociais e políticas, estava sempre na mídia escrita e falada do país. O fato até causava estranheza em muitas pessoas, mesmo entre membros do clero, que aspiravam uma igreja voltada somente para as ações mais espirituais da vida da comunidade. E não deixa de ser verdade que, nos anos mais recentes isto até passou a acontecer, perdendo a Conferência sua capacidade de articulação junto às esferas públicas.

Qual perfil das novas Diretorias da CNBB? Para usar os termos do gosto da imprensa, é mais conservadora? É mais avançada? Com certeza, continua mais “alinhada” com as preocupações pastorais vindas de Roma, como já vem acontecendo desde que entrou em vigor o seu novo Estatuto.

As Assembleias se davam anteriormente em Itaici (SP), no Convento dos Jesuítas. A partir de 2011 estão sendo realizadas em Aparecida (São Paulo). Quem participa da Assembléia Geral? Os bispos diocesanos, bispos auxiliares ou coadjutores (em número de 320), e os administradores diocesanos. Os bispos eméritos (hoje, mais de uma centena) são convidados, como também alguns membros de outras igrejas não-católicas e os presidentes de organismos eclesiais. Participa ainda um grande número de assessores e peritos para os diversos assuntos que serão tratados. Além dos serviços técnicos de um grande grupo de pessoas que, em todos os níveis, auxiliam no desenvolvimento dos trabalhos. Mais de 400 pessoas, portanto.

Na Igreja, os bispos, constituídos pastores, são tidos como os sucessores dos Apóstolos. A cada ano, isto lhes é recordado, também nestas Assembleia Gerais que tradicionalmente se reúnem na 2ª. Semana da Páscoa. Uma época bastante rica de reflexão na Igreja em razão de ser o Tempo Pascal, cujas leituras da Liturgia Diária têm os mais expressivos textos do Novo Testamento na recordação das aparições de Jesus Ressuscitado dando aos Apóstolos suas últimas orientações na implantação do Evangelho.

Professor do Instituto de Teologia e Pastoral (ISTEP) e Pároco de Cruz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: