Vamos ao capim? Não é sugestão…Não há rezas… Nem benzeduras….

Esta coluna leva ao leitor informações, comentários, críticas sobre o dia-a-dia da Igreja Católica em nível local, nacional e mundial. Por extensão, tem abordado também questões relacionadas a outros credos e igrejas, até sem fugir de considerações relacionadas ao espiritismo e ao mundo dos adivinhos, das crendices, feitiçarias, macumbas ou bruxarias. Quanto a estes, valemo-nos da experiência e do conhecimento que nos transmite a parapsicologia, de modo especial, através da palavra e dos estudos do CLAP (Centro Latino-Americano de Parapsicologia), sob a orientação do bem conhecido padre Oscar Quevedo.

Em Dia com a Igreja, hoje, traz assunto, já comentado aqui. E o traz novamente para dizer que, embora tido como objeto de crendices, de algo ligado à religiosidade popular, do mundo dos benzedores e rezadeiras, verdadeiramente não o é. Digo isto, até valendo-me da conhecida exclamação do poeta maranhense, Gonçalves Dias, no I-Juca Pirama: “Meninos, eu vi”.

De que estou falando? Da “pedra do CAPIM”. Dona Rita, a cuidadora da “pedra”, vai, nestes próximos dias, receber medalha de honra do CRAS local, pelo bom serviço comunitário que presta no nosso meio. Sobre a pEdra do Capim, antes eu fazia como ainda hoje os médicos e os enfermeiros fazem. Por não acreditar no que me contavam, eu também zombava dos que iam até lá. Lá, onde? Na pedra do CAPIM, algo curioso em poder da família Vasconcelos, há quase 90 anos. Mudei de opinião quando, 40 anos atrás, recebi em minha casa, onde se demorou por três dias, um padre europeu, já idoso, que havia sido missionário na África. Falando a ele sobre as “curas” da pedra do CAPIM, disse-me seguro: “Sei o que é. Cada um de nós missionários, ao ir para a África, recebía uma pedra dessas”.

Daí para frente, comecei a encaminhar para o CAPIM pessoas que tinham sido mordidas de cobra venenosa, algumas já sem enxergar, ou picadas por abelha ou outro inseto peçonhento, queixando-se de dores. E eu era informado do bom e imediato resultado. Acompanhei alguns casos bem ilustrativos, especialmente o da freira de Pirituba.

Atualmente, a pedra está com dona Rita que mora bem pertinho de nossa Casa Paroquial. No seu atendimento aos que a procuram não há rezas, nem benzeduras, nem toques mágicos ou místicos. Muito menos qualquer forma de pagamento, mesmo se o curado insiste em querer fazê-lo. A pedra gruda, às vezes, até onze horas, como aconteceu com o seu Armando, mordido no pé por um morcego que tinha se alojado dentro do seu sapato. Se o atendimento coincidir com hora de almoço, dona Rita traz um pratinho pronto. Com um sorriso de satisfação. Ela atende os que precisam com tanta presteza e caridade que o seu gesto é até um gesto de quem quer “estar em dia com a Igreja”.

A lembrança de repetir o tema me veio por ter presenciado, nesta semana mesma, mais de uma fila de espera na casa de dona Rita. Aguardavam as pessoas, gente de maior e crianças também, a sua vez de colocar, na parte do corpo atingida, a “pedra do Capim” para retirada do veneno que entrou no sangue pela picada da cobra venenosa, coral ou jararaca, ou do escorpião ou outro inseto peçonhento. Naquele dia, a criança de 7 anos agitava-se gritando: “Ai, ai… ai… ai, dói demais…” Chegada a sua vez, a pedra não grudou. Conclusão: não havia veneno e o procedimento para a cura foi confiado ao Hospital mesmo. Não era caso para a pedra de dona Rita.

A pedra já foi descrita em versos pelo cordelista, nascido em Cruz, José Orestes de Albuquerque, ainda quando residia em São Paulo. Dos muitos versos destaco dois, o XIII e o XVI, para a coluna: XIII. Ninguém sabe da origem / Nem sua composição /É um completo mistério /Ninguém dá definição /Se é prata, se é ouro / Se é pedra, se é torrão.
XVI .A pedra perdeu a conta /Das pessoas que salvou /Gente já desenganada /Carregados em andor /Gente pobre, gente rica /Gente contra e a favor

Por não perceber razões para tal, só faço minhas reticências, quando dona Rita afirma, com segurança, que a pedra não pode ser vista por mulher que ainda não chegou à menopausa; nem pode ser fotografada; nem ver a luz do sol… Se isto acontecesse, ela admoesta, perderia a pedra a força e o “encanto”. Não adianta argumentar. Dona Rita, apenas ri e diz: “Por via das dúvidas, é melhor prevenir do que remediar”.

“MENINOS, EU VI…!”

“Meninos, eu vi…”. Ela tinha residência na Casa das Irmãs da Santa Casa, em Sobral. Fazia lá um bonito trabalho de assistência social junto aos doentes internados ali. Gozava da melhor consideração por parte dos médicos e enfermeiros do Hospital. Certa vez, no sítio da família, em Pirituba (Cariré), foi ela ferida na perna por uma cobra ou um escorpião. O problema agravou-se; foi tratada, com muito cuidado, pelos médicos amigos do Hospital, que lhe fizeram até uma pequena cirurgia. Mas, não foi curada.

Naquele meio-dia, de uma sexta-feira, estava eu no refeitório do Abrigo, em Sobral, e ela passou em uma cadeira de rodas. Perguntei-lhe: “O que foi isso, irmã?”. Contou-me a história acima. Era no tempo em que a pedra ainda estava no Capim, sob os cuidados de dona Úrsula. Disse-lhe eu: “Você já ouviu falar na “pedra do Capim?”. “O que é isso?”, retrucou-me, interessada. Expliquei-lhe e acrescentei: “Se quiser, você vai comigo para lá, logo amanhã, sábado, e mando-lhe deixar de volta para Sobral.”. “Quero, sim. Mas, não vou com você. Tenho um enfermeiro amigo que me leva até lá.”. De fato, conversou com o enfermeiro sobre a história e ele saiu-se assim: “Irmã, você acredita em benzedeira!… Nós aqui, com todos os recursos da medicina, não demos jeito. Uma pedra vai dar?!… (risos). Não vou, não. Mas, arranjo-lhe meu carro e uma enfermeira para lhe acompanhar.”. De fato, domingo seguinte, às 8 da manhã, ela chegou à minha casa. Trazia no carro a cadeira de rodas. Desceu amparada pela enfermeira que a acompanhava, empurrando-lhe a cadeira. Meu motorista, o Bureta, levou-a ao Capim. Por volta de uma hora da tarde, ela voltou. Ao chegar, pediu aos acompanhantes que a deixassem entrar sozinha em minha casa para fazer-me uma surpresa. Andando apressadamente, até esparramou-se na cadeira de balanço da sala onde eu terminara de almoçar, e foi logo dizendo: “Graças a Deus! Veja como eu estou…!”. Estava mesmo completamente restabelecida. E o Bureta, que é genro da dona Rita, me disse que começou a entender o mistério da “pedra” a partir daquele dia. Ele também pode dizer: “Meninos eu vi!”.

Outros casos semelhantes: o de dona Raimunda. Ela mesma me contou. Já sem enxergar, e quase sem movimentar um dos braços, mesmo após ter ido a São Paulo para tratamento hospitalar, com apoio dos filhos, que lá residiam. Bastou-lhe colocar, no local da picada, a pedra do Capim, para recobrar a visão e os movimentos do braço que a cobra tinha ferido; o do João Cleantes, que, naquela tarde, suspendeu a viagem a Fortaleza, onde, por indicação do médico, com quem estava se tratando, iria cortar o pé que tinha sido ferido, há meses, nas águas do rio onde pescava. Por sugestão minha, foi antes colocar a pedra lá na casa de dona Rita. A pedra grudou no seu pé por umas seis horas, da primeira vez; em dias seguintes, continuou mais duas vezes, em demoras de 4 a 6 horas. Restabelecido, voltou à normalidade do seu trabalho, com os dois pés, na agricultura. “Meninos, eu vi!”.

Vi também um jovem no leito do Hospital de Cruz. Fazia três dias estava ali em tratamento de uma mordida de cobra no braço esquerdo. Bastante inflamado. Falei ao médico plantonista, que tinha vindo de outra cidade: “Por que você não o leva para a “pedra do Capim!?”.”. “É… já ouvi falar… Mas, estou agora sem ambulância… Deixe que, amanhã, eu vou encaminhar para lá”. De fato, de manhãzinha o enviou e já, antes do meio dia, o moço foi para casa, em Lagoa Salgada, sem passar mais pelo hospital…”. Não era preciso. “Meninos, eu vi”.

UMA MEDICINA ALTERNATIVA?
São tantos ou casos que vi… Dom Odelir, que foi nosso Bispo Diocesano, à semelhança do missionário referido acima, me disse que, quando estava na África, como missionário, recebeu também uma destas pedras para suas andanças entre as comunidades dali.

Mas, cuidado para não entender com exagero, ou falsa interpretação. Mal informado, veio de Fortaleza à casa de dona Rita, à procura da pedra do Capim, um senhor que estava paralítico em conseqüência de um AVC (acidente vascular cerebral). Claro que, ao chegar, agora bem informado, nem chegou a ver dona Rita. A pedra do Capim não é para qualquer coisa. È para tirar veneno de cobra venenosa, livrando a pessoa de suas conseqüências. Tão somente para isto.

Narrando estes fatos, será que também eu estou com crendices? Perguntava-me isto, na primeira vez que os relatei aqui. Não! E o tema vem no EM DIA precisamente por não ser “a pedra do Capim” crendice, superstição, sugestão, charlatanismo, como muitos da área médica ainda pensam! Creio que não é nada disso. Mas não sei o que é: azougue? imã? Quem sabe, não seria bom as autoridades da saúde dizerem alguma coisa? Adotarem a pedrinha como uma medicina alternativa, entregando-a a agentes de saúde? Mas, onde adquirí-la? Na África, com os missionários? Só que é preciso ter cuidado com os enganadores. Na década de 70, eu mesmo recebi uma destas pedras. Um presente de um parente meu que comprou 5 delas, em São Paulo. Deu-me uma. Ao recebê-la, coloquei-a aos cuidados de dona Úrsula ( na época, a guardadora da pedra do Capim), pedindo que ela a usasse quando aparecesse alguém doente lá na sua casa. Poucos dias depois, ele me devolveu, lamentando que a pedra que me deram não fazia nenhum efeito nos doentes… Diria o meu vizinho: “Era do Paraguai!”.

Não custa perguntar: Era falsa!? Ou, será que alguma mulher nova olhou para ela!? Ou minha pedra ficou exposta à luz do dia!? Se assim foi, bem que fazem sentido os cuidados de dona Rita!

* Coordenador da Comissão Diocesana da Doutrina da Fé e Pároco de Cruz

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